Parte 1: Se você acredita, bata palmas.
Eu sentei no chão no escuro como costumo fazer sempre. Deixei os meus pequenos demônios correrem livres pela minha pele, escalarem minha coluna até meu cérebro e sussurrarem blasfêmias nos meus ouvidos. Antes eram fadinhas azuis, agora são homenzinhos vermelhos, com caudas afiadas. Ele riem e debocham de mim no escuro, peidam e gargalham. São uns sujeitinhos engraçados e malignos.
Me peguei pensando mais uma vez naquela relação íntima entre dor e inspiração. Bukowski disse "Não é a dor que cria a obra. É o artista." Eu respeitosamente duvido do meu mestre. Exato, eu não discordo, não totalmente, acho que deve sim existir o mérito do artista na criação da obra, mas será que a dor não tem mesmo nada a ver com isso?
Aí você vai ficar puto comigo e dizer algo do tipo "Puta merda, achei que tinha acabado a choradeira!" e olha, você entendeu tudo errado, a choradeira acabou, o problema é justamente esse. E agora? E agora que eu não tenho sobre o que escrever? E agora que eu já não escrevo mais nada com a intenção de que um certo alguém leia?
Quero dizer, se eu não sofro por nada, basicamente eu não tenho sobre o que desabafar e sendo assim, não tenho sobre o que escrever.
Os pequenos demônios dançam e cantam em cima das minhas mãos, um pequeno ritual maluco deles. Me pego pensando, será que querem dizer algo? Será isso algum tipo de sinal? Eu devo tentar de alguma forma mudar a minha motivação, tentar escrever por outros meios que não a dor? É um bocado pra se transmitir apenas dançando pelado em cima da mão de um gigante, mas acho que seria um bom palpite.
E qual o oposto da dor? Não penso nisso a tanto tempo que nem bem me lembro mais. Aí um dos danadinhos se pendura no meu alargador na orelha esquerda e grita "Prazer!" em alto e bom português. Escrever sobre o prazer, sobre as coisas que me deixam feliz. Ousado, muito ousado. Esses carinhas não estão de brincadeira.
Ta legal, e o que viria a ser uma dessas coisas que me deixam feliz? Dinheiro, mulheres, amigos, bebês foca? Tudo isso me deixa moderadamente feliz acho. Não é muito, mas é um começo, vou pensar no assunto, deixar as idéias cozinharem um pouco mais na minha cabeça. Rascunhar uns textos sobre dinheiro, mulheres e amigos, talvez até sobre bebês foca. Com certeza rascunhar algo sobre drogas. Meditação. Ei, parece que tudo está vindo com facilidade pra mim agora. Acho que os diabinhos estavam mesmo certos no final das contas.
Em comemoração eles parecem estar dançando mais do que nunca, alguns se jogam dos meus ombros e caem no meu colo, uma baita distância pra quem tem 2cm de altura, as fadinhas pelo menos tinham asinhas de formiga. Gritam e riem e peidam e gargalham e xingam.
Eu não preciso sofrer por ninguém pra ser tudo que eu posso ser. Ainda mais sofrer por alguém que não quer meu sofrimento. Deixo meu sangue, meu suor e minhas lágrimas pra pessoas mais dispostas. Ou pra um momento mais oportuno. No momento o que vai aumentar o fogo na fornalha, são coisas boas.
E aí eu olhos pras minhas mãos e ao meu redor e eles se foram, os homenzinhos vermelhos. Acho que voltaram para seu pequeno castelo de fogo. Foram dormir até que eu precise deles. E quando olho pra cima, tenho a impressão de ver pequenos borrões azuis, acho que minhas fadinhas estão voltando pra mim.
Claro que isso tudo de fadas e diabinhos é bobagem, mas vocês entenderam.
Gordon "Troll" Banks
segunda-feira, 27 de julho de 2009
sábado, 25 de julho de 2009
Aquele bar na esquina da Mothway...
Parte 1: Jack, Charlie, e o grande baile
Depois de um ano no Japão, era de se esperar que Jack tivesse virado um cara mais Zen. Ele até tentava, mas não era bem o estilo dele, por mais que ele quizesse honrar a memória do amigo Charlie. Assim que saiu do retiro começou a beber pesadamente, andava nos lugares mais escuros e sujos das cidades pelas quais passava. Botecos baratos, fumando cigarros baratos. Foi num desses lugares que ele conheceu o Troll.
O Troll era um cara com a mesma idade de Jack, era do tipo grandalhão, um sujeiro engraçado, perturbadoramente parecido com Charlie. Jack conseguia sentir a fúria por trás dos olhos alegres do sujeito. Estava indo pro Norte procurar emprego nos navios pesqueiros, mas tinha dado uma estacionada por ali torrando a grana que tinha ganho trabalhando como capanga de algum figurão em El Salvador.
Os dois vinham se encontrando com frequência num boteco sujo e escuro na esquina da 6ª com a Mothway.
Jack chegou por volta das 8 da noite, era um dos primeiros clientes. Bebeu duas cervejas e um scotch, acendeu um cigarro e ficou vendo a Tv, passava um jogo de soccer inglês, o Meyerside Derby. Lá pelas 11 a porta abriu com força e o sino que ficava na entrada deu uma volta completa no eixo, o Troll chegou, visivelmente bêbado. Cambaleou pelo bar e se sentou junto com Jack.
- Hey Jack.
- Hey Troll, pelo jeito já começou sem mim.
Os dois riram e ficaram em silêncio, o Troll pediu cerveja pra dois, mas ficou com as duas canecas, Jack ja tinha se acostumado com isso, pediu uma caneca pra si. Beberam conversando, o jogo ainda na tv, o bar encheu um pouco mais, mas logo esvaziou lá pelas 2 da manhã, os dois ainda bebiam com vontade. Depois veio mais silêncio.
- Um amigo meu se matou. - Jack disse subitamente.
- Esperto.
- Acha graça?
- Não, acho esperto. Se achasse graça teria dito "Engraçado".
- Foi no último ano do colegial, na noite do baile de formatura.
- O universo não gosta de trapaceiros. Me disseram isso uma vez. Suicídio é como usar código pra vencer num jogo, cartas marcadas.
- Ele era bem parecido com você. Eu nunca entendi porque ele se matou. Me senti culpado.
- Eu não vou me matar, ainda não. Se é isso que te preocupa.
- Ir pro mar pescar carangueijos é um jeito bem complexo de tentar se matar, mas não deixa de ser uma tentativa de suicídio.
Troll terminou mais uma caneca de cerveja, pediu a próxima. Jack acendeu mais um cigarro.
- Estamos todos nos matando aos poucos Jack. Cigarros, bebida, carne vermelha, automóveis. Acho o cúmulo todo mundo me julgar só porque eu quero algo mais teatral. A vida termina em morte de qualquer jeito.
- Entendo.
- Vida é superestimada. Comer, beber, foder, tudo superestimado.
Jack não tinha argumentos pra rebater, se pegou pensando nas palavras amargas do Troll. Se pegou pensando em como o Troll era parecido com o falecido Charlie, mas por alguma razão ainda estava ali, lutando, comendo , bebendo, fodendo.
- O que você está esperando então? Porque não se mata logo?
O Troll deu um longo gole na cerveja e fechou os olhos trazendo à lembrança algo que só ele podia ver.
- Eu sou curioso Jack. Acho que é por isso. O que tem me segurado por aqui é o "E se...?".
O barman se aproximou e anunciou que o bar ia fechar, já eram 4:30 da manhã. Jack alcançou a carteira, mas o Troll foi mais rápido e jogou um bolinho de notas amassadas no balcão.
- Dinheiro sujo. Mas serve pra pagar cerveja.
Do lado de fora do bar os dois se despediram como sempre faziam, mas no dia seguinte o Troll não apareceu, nem nunca mais, levaria anos até que Jack o visse de novo, ele tinha ido pro Norte atrás dos seus carangueijos e barcos de pesca, atrás de sua teatral morte branca.
Depois de um ano no Japão, era de se esperar que Jack tivesse virado um cara mais Zen. Ele até tentava, mas não era bem o estilo dele, por mais que ele quizesse honrar a memória do amigo Charlie. Assim que saiu do retiro começou a beber pesadamente, andava nos lugares mais escuros e sujos das cidades pelas quais passava. Botecos baratos, fumando cigarros baratos. Foi num desses lugares que ele conheceu o Troll.
O Troll era um cara com a mesma idade de Jack, era do tipo grandalhão, um sujeiro engraçado, perturbadoramente parecido com Charlie. Jack conseguia sentir a fúria por trás dos olhos alegres do sujeito. Estava indo pro Norte procurar emprego nos navios pesqueiros, mas tinha dado uma estacionada por ali torrando a grana que tinha ganho trabalhando como capanga de algum figurão em El Salvador.
Os dois vinham se encontrando com frequência num boteco sujo e escuro na esquina da 6ª com a Mothway.
Jack chegou por volta das 8 da noite, era um dos primeiros clientes. Bebeu duas cervejas e um scotch, acendeu um cigarro e ficou vendo a Tv, passava um jogo de soccer inglês, o Meyerside Derby. Lá pelas 11 a porta abriu com força e o sino que ficava na entrada deu uma volta completa no eixo, o Troll chegou, visivelmente bêbado. Cambaleou pelo bar e se sentou junto com Jack.
- Hey Jack.
- Hey Troll, pelo jeito já começou sem mim.
Os dois riram e ficaram em silêncio, o Troll pediu cerveja pra dois, mas ficou com as duas canecas, Jack ja tinha se acostumado com isso, pediu uma caneca pra si. Beberam conversando, o jogo ainda na tv, o bar encheu um pouco mais, mas logo esvaziou lá pelas 2 da manhã, os dois ainda bebiam com vontade. Depois veio mais silêncio.
- Um amigo meu se matou. - Jack disse subitamente.
- Esperto.
- Acha graça?
- Não, acho esperto. Se achasse graça teria dito "Engraçado".
- Foi no último ano do colegial, na noite do baile de formatura.
- O universo não gosta de trapaceiros. Me disseram isso uma vez. Suicídio é como usar código pra vencer num jogo, cartas marcadas.
- Ele era bem parecido com você. Eu nunca entendi porque ele se matou. Me senti culpado.
- Eu não vou me matar, ainda não. Se é isso que te preocupa.
- Ir pro mar pescar carangueijos é um jeito bem complexo de tentar se matar, mas não deixa de ser uma tentativa de suicídio.
Troll terminou mais uma caneca de cerveja, pediu a próxima. Jack acendeu mais um cigarro.
- Estamos todos nos matando aos poucos Jack. Cigarros, bebida, carne vermelha, automóveis. Acho o cúmulo todo mundo me julgar só porque eu quero algo mais teatral. A vida termina em morte de qualquer jeito.
- Entendo.
- Vida é superestimada. Comer, beber, foder, tudo superestimado.
Jack não tinha argumentos pra rebater, se pegou pensando nas palavras amargas do Troll. Se pegou pensando em como o Troll era parecido com o falecido Charlie, mas por alguma razão ainda estava ali, lutando, comendo , bebendo, fodendo.
- O que você está esperando então? Porque não se mata logo?
O Troll deu um longo gole na cerveja e fechou os olhos trazendo à lembrança algo que só ele podia ver.
- Eu sou curioso Jack. Acho que é por isso. O que tem me segurado por aqui é o "E se...?".
O barman se aproximou e anunciou que o bar ia fechar, já eram 4:30 da manhã. Jack alcançou a carteira, mas o Troll foi mais rápido e jogou um bolinho de notas amassadas no balcão.
- Dinheiro sujo. Mas serve pra pagar cerveja.
Do lado de fora do bar os dois se despediram como sempre faziam, mas no dia seguinte o Troll não apareceu, nem nunca mais, levaria anos até que Jack o visse de novo, ele tinha ido pro Norte atrás dos seus carangueijos e barcos de pesca, atrás de sua teatral morte branca.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Menos amor, mais Fúria...(Assombrado)
Um bom amigo me disse que ela não vale a pena.
Um bom amigo me disse que é melhor eu desistir.
Um bom amigo me disse que eu estou fazendo papel de bobo.
Mas e aí, o que eu penso disso tudo? Tenho feito um puta drama, é verdade, admito, mas a galera não tem me ajudado tanto quanto eu gostaria, sei lá...eu que faço tanto pelos outros esperava um pouco mais de apoio.
Muita gente me criticou, porque até então eu era uma fortaleza indestrutível e uma única rachadura deu brecha pra todo um colapso emocional das minhas estruturas. Disseram que eu esperei tempo demais, disseram que eu fui afoito demais, carente demais, chato demais, me disseram que eu era GORDO demais (se fuder né meu?), disseram que eu fiz demais, disseram que eu fiz de menos. Todo mundo deu pitaco. Beleza que eu fui atrás de opinião e estava sujeito a ouvir coisas que não queria.
A unanimidade pareceu querer me dizer "Cara, pelo menos vc tentou, parte pra outra."
Eu tenho dificuldade de engolir isso. Segundo e último lugar não se diferenciam pra mim, só vence quem chega em primeiro. Eu falhei. Mais do que um coração partido, orgulho ferido.
O que eu acho engraçado é que as pessoas esperam que eu sofra, mesmo que por anos. Se algum dia no futuro eu chegar a sentir algo por alguém novamente, vão todos logo dizer "Viu? Era só drama!"
Eu fiquei mal e sofri bastante, cabeça vazia é a oficina do diabo, esse ditado nunca me pareceu tão certo. Mas sei lá, acho que chega...quero dizer, deixa rolar, se for pra ser, quem sabe um dia...talvez eu deva mesmo partir pra outra. Não que por um segundo eu acredite que não vale a pena, mas por realmente achar que eu já to fazendo papel de palhaço. To sofrendo demais, preciso curar essas feridas, batalhas demais num espaço de tempo curto demais.
Eu não sei se estou pronto, mas eu preciso me mexer. Mesmo ainda assombrado pela lembrança dela. Menos amor, mais fúria na minha vida, eu tenho que me colocar em forma, ninguém devia ser capaz de fazer isso comigo...eu sinto que estou voltando, bem aos poucos, mas estou voltando, vocês que me aguardem.
Gordon "Troll" Banks
Um bom amigo me disse que é melhor eu desistir.
Um bom amigo me disse que eu estou fazendo papel de bobo.
Mas e aí, o que eu penso disso tudo? Tenho feito um puta drama, é verdade, admito, mas a galera não tem me ajudado tanto quanto eu gostaria, sei lá...eu que faço tanto pelos outros esperava um pouco mais de apoio.
Muita gente me criticou, porque até então eu era uma fortaleza indestrutível e uma única rachadura deu brecha pra todo um colapso emocional das minhas estruturas. Disseram que eu esperei tempo demais, disseram que eu fui afoito demais, carente demais, chato demais, me disseram que eu era GORDO demais (se fuder né meu?), disseram que eu fiz demais, disseram que eu fiz de menos. Todo mundo deu pitaco. Beleza que eu fui atrás de opinião e estava sujeito a ouvir coisas que não queria.
A unanimidade pareceu querer me dizer "Cara, pelo menos vc tentou, parte pra outra."
Eu tenho dificuldade de engolir isso. Segundo e último lugar não se diferenciam pra mim, só vence quem chega em primeiro. Eu falhei. Mais do que um coração partido, orgulho ferido.
O que eu acho engraçado é que as pessoas esperam que eu sofra, mesmo que por anos. Se algum dia no futuro eu chegar a sentir algo por alguém novamente, vão todos logo dizer "Viu? Era só drama!"
Eu fiquei mal e sofri bastante, cabeça vazia é a oficina do diabo, esse ditado nunca me pareceu tão certo. Mas sei lá, acho que chega...quero dizer, deixa rolar, se for pra ser, quem sabe um dia...talvez eu deva mesmo partir pra outra. Não que por um segundo eu acredite que não vale a pena, mas por realmente achar que eu já to fazendo papel de palhaço. To sofrendo demais, preciso curar essas feridas, batalhas demais num espaço de tempo curto demais.
Eu não sei se estou pronto, mas eu preciso me mexer. Mesmo ainda assombrado pela lembrança dela. Menos amor, mais fúria na minha vida, eu tenho que me colocar em forma, ninguém devia ser capaz de fazer isso comigo...eu sinto que estou voltando, bem aos poucos, mas estou voltando, vocês que me aguardem.
Gordon "Troll" Banks
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Aborto Romântico
Aqueles gosto doce, amargou.
O sentimento bom, se abalou.
A ira solitária, inflamou.
E o que era pra nascer, acabou.
O sentimento bom, se abalou.
A ira solitária, inflamou.
E o que era pra nascer, acabou.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Sou eu
Sou eu quem te faz sorrir;
Sou eu quem te consola ao chorar;
Sou eu quem está sempre lá, mesmo quando não posso ajudar;
Sou eu quem te aceita do jeito que você é, com seus pequenos defeitos maravilhosos;
Sou eu quem vai te buscar de madrugada, mesmo sem ter carro;
Sou eu quem te leva flores nos dias de semana, só pra te fazer uma surpresa;
Sou eu quem te diz tudo o que pensa te olhando nos olhos, sem sentir vergonha;
Sou eu quem canta todas as músicas pensando em você;
Sou eu quem acorda todos os dias pensado nos seus olhos cor de avelã, e por último, mas não menos importante;
Sou eu o cara que você não acha bom o bastante pra você.
Gordon "Troll" Banks
Sou eu quem te consola ao chorar;
Sou eu quem está sempre lá, mesmo quando não posso ajudar;
Sou eu quem te aceita do jeito que você é, com seus pequenos defeitos maravilhosos;
Sou eu quem vai te buscar de madrugada, mesmo sem ter carro;
Sou eu quem te leva flores nos dias de semana, só pra te fazer uma surpresa;
Sou eu quem te diz tudo o que pensa te olhando nos olhos, sem sentir vergonha;
Sou eu quem canta todas as músicas pensando em você;
Sou eu quem acorda todos os dias pensado nos seus olhos cor de avelã, e por último, mas não menos importante;
Sou eu o cara que você não acha bom o bastante pra você.
Gordon "Troll" Banks
sexta-feira, 10 de julho de 2009
O Merrow
Cheguei essa manhã em Porto Holandês, Alaska. Meu tio tinha dito que ia estar me esperando lá, mas eu não encontrei ninguém. Fiquei lá por horas até que finalmente decidi procurar um hotel onde ficar, é inverno aqui no Alaska e embora já não faça tanto frio quanto fazia uns 30 anos atrás, ainda é desagradável ficar tomando friagem.
Mais tarde naquela noite bateram na porta do meu quarto, era um cara baixinho com toca de lã, na casa dos 40, rosto marcado. Tive certeza que era um marinheiro. Disse que estava lá a mando do meu tio, pra me levar pro barco assim que eu pudesse. Parecia urgente, achei melhor me vestir e ir com ele.
Meu pai nunca me falou muito do meu tio, os dois eram distantes, não que fossem brigados, só não se falavam muito. Eu nunca nem tinha visto o cara, ele morava no Alaska havia muito tempo e era daqueles tipos que não se deixam fotografar. Até então meu tio era um mistério pra mim, mas não exitou nem por um momento ao me arrumar emprego no barco dele quando meu pai pediu. Palavras do meu pai "Seu tio vai fazer você virar homem". Estou certo de que meu pai tinha a melhor das intenções me mandando pra cá.
Chegando no barco, longo e envelhecido, de um azul pálido, corri os olhos pela traseira onde estava o nome da embarcação, "The Merrow".
O baixinho me levou até a cabine do capitão, onde na porta eu li "Captain Troll", estranhei, mas imaginei que fosse um apelido do meu tio, já tinha ouvido falar que ele era um daqueles caras enormes que começaram a nascer nas décadas de 80 e 90, antes das pragas começarem a fazer os humanos nascerem cada vez mais frágeis.
A porta abriu e o cômodo atrás dela estava escuro, nada convidativo, uma voz rouca me chamou em alto e claro português paulista "Pode entrar Jr. eu estou aqui esperando". Entrei e olhei em todas as direções tentando captar como era aquela sala. Era um cômodo de tamanho médio, uma cama num canto, uma mesa com um computador no outro, no fundo um frigobar e uma poltrona, sentada nela, estava meu tio, que eu ainda não consegui ver por causa da iluminação precária.
"Eu gosto de ficar sentado no escuro. Mania antiga. Pode acender a luz, o interruptor está do seu lado." Eu achei o interruptor e acendi a luz, foi estranho.
Ele era imenso como tinham dito, mesmo sentado. Estava com uma jarra de 1l. na mão, cheia até quase a boca de um líquido que parecia muito ser uísque. Levantou-se com dificuldade e se aproximou mancando. Reparei que a perna direita não passava de um toco de madeira escura. No rosto uma cicatriz enorme passava por cima do olho direito, que era branco e cego. O cabelo muito preto dava os primeiros sinais de grisalhice. Usava costeletas gigantes e mal aparadas, muito negras. Tinha um sorriso torto, meio malicioso, mas ainda assim confortante. Estendeu a mão pra mim. Quando segurei sua mão, o aperto de quase quebrar meus ossos nem foi o mais estranho, mas reparar que na mão direita faltavam os dois últimos dedos.
"Foi o mar. Ele me tirou muita coisa, menos o que eu queria que ele tirasse."
Conversamos então um pouco, em português mesmo. Quando alguém entrava ele tinha a cortesia de falar em inglês, mas assim que saíam ele voltava a falar em português, gostava muito de falar, era articulado, vocabulário extenso, percebi sem muito esforço que era um homem inteligente, a despeito de sua aparência quase fantasiosa de Capitão Pirata.
Ele me contou como tinha chegado ao Alaska 20 anos atrás em busca de emprego nos barcos de carangueijo, a dificuldade que teve em arrumar emprego, mas tudo foi compensado na primeira temporada no mar, ganhou muito dinheiro, resolveu ficar mais algum tempo e a cada temporada ganhava mais e mais, enquanto economizava pra comprar seu próprio barco. Estava no Alaska há 6 anos quando sofreu o acidente, um guindaste despencou em cima dele. Perdeu o olho, dois dedos e a perna, quase morreu na verdade.
Sem mulher e filhos no Brasil e desfigurado pelo acidente, ele desistiu do amor, resolveu ficar no mar pro resto da vida, nunca mais foi ver a família ou sua terra natal. Vez ou outra recebia uma foto do mais novo bebê ou a notícia do morto mais recente, mas pouco se importava, jamais voltava, jamais mandava notícias. Logo pararam de incomoda-lo, mas sabiam que ele estava lá em algum lugar, naquele deserto gelado.
"Do que você fugiu Jr.? Por que veio pra cá?" Eu não soube bem o que responder, sabia no meu íntimo a resposta, além de trabalhar, ganhar dinheiro e agradar meu pai, eu estava fugindo de algo. De alguém. Dela. Achei que seria honesto contar ao meu velho tio tudo sobre Julia. Emocionado eu dei detalhes dos nossos desencontros e de como eu gostava dela, mas o destino nos impedia de estarmos juntos. Assim que terminei, meu tio sorriu. O sorriso virou uma gargalhada rouca e grave. Ele terminou sua jarra de uísque depois disso.
"Eu também fugi de uma garota quando vim pra cá Jr. Por isso eu ri, tudo é tão repetitivo, elas sempre são perfeitas, nós nunca podemos suportar a idéia de viver sem elas e mesmo assim, aqui estamos nós, no meio do nada. Fugir não resolveu pra mim garoto e não vai resolver pra você. Trabalhe aqui comigo esse inverno, mas volte pra casa assim que puder e lute por ela! Não se pode fugir de si mesmo, eu não te culpo por tentar, mas aproveite o conselho de quem já tentou e falhou. Ficar aqui sozinho só vai fazer piorar."
Eu trabalhei no Merrow o inverno todo, voltei totalmente mudado pra casa, meu pai estava certo. Meu tio, o Capitão Troll, fez de mim um homem. Quando eu voltei, Julia tinha secretamente esperado por mim, namoramos e dois anos depois íamos nos casar. Fiz questão de enviar um convite de casamento ao meu tio, mas ele nunca veio como eu imaginei que não viria.
O mais triste foi receber a notícia de que no dia do meu casamento, sozinho dentro do Merrow, com a barba feita e o cabelo cortado, sóbrio como não estivera em anos, meu tio usou uma corda para se enforcar. Os médicos disseram que ele quebrou o pescoço na queda. Ser tão grande deve ter valido a pena pra ele no final.
Dos relatos de A. G. Silva Jr. dezembro de 2034
Mais tarde naquela noite bateram na porta do meu quarto, era um cara baixinho com toca de lã, na casa dos 40, rosto marcado. Tive certeza que era um marinheiro. Disse que estava lá a mando do meu tio, pra me levar pro barco assim que eu pudesse. Parecia urgente, achei melhor me vestir e ir com ele.
Meu pai nunca me falou muito do meu tio, os dois eram distantes, não que fossem brigados, só não se falavam muito. Eu nunca nem tinha visto o cara, ele morava no Alaska havia muito tempo e era daqueles tipos que não se deixam fotografar. Até então meu tio era um mistério pra mim, mas não exitou nem por um momento ao me arrumar emprego no barco dele quando meu pai pediu. Palavras do meu pai "Seu tio vai fazer você virar homem". Estou certo de que meu pai tinha a melhor das intenções me mandando pra cá.
Chegando no barco, longo e envelhecido, de um azul pálido, corri os olhos pela traseira onde estava o nome da embarcação, "The Merrow".
O baixinho me levou até a cabine do capitão, onde na porta eu li "Captain Troll", estranhei, mas imaginei que fosse um apelido do meu tio, já tinha ouvido falar que ele era um daqueles caras enormes que começaram a nascer nas décadas de 80 e 90, antes das pragas começarem a fazer os humanos nascerem cada vez mais frágeis.
A porta abriu e o cômodo atrás dela estava escuro, nada convidativo, uma voz rouca me chamou em alto e claro português paulista "Pode entrar Jr. eu estou aqui esperando". Entrei e olhei em todas as direções tentando captar como era aquela sala. Era um cômodo de tamanho médio, uma cama num canto, uma mesa com um computador no outro, no fundo um frigobar e uma poltrona, sentada nela, estava meu tio, que eu ainda não consegui ver por causa da iluminação precária.
"Eu gosto de ficar sentado no escuro. Mania antiga. Pode acender a luz, o interruptor está do seu lado." Eu achei o interruptor e acendi a luz, foi estranho.
Ele era imenso como tinham dito, mesmo sentado. Estava com uma jarra de 1l. na mão, cheia até quase a boca de um líquido que parecia muito ser uísque. Levantou-se com dificuldade e se aproximou mancando. Reparei que a perna direita não passava de um toco de madeira escura. No rosto uma cicatriz enorme passava por cima do olho direito, que era branco e cego. O cabelo muito preto dava os primeiros sinais de grisalhice. Usava costeletas gigantes e mal aparadas, muito negras. Tinha um sorriso torto, meio malicioso, mas ainda assim confortante. Estendeu a mão pra mim. Quando segurei sua mão, o aperto de quase quebrar meus ossos nem foi o mais estranho, mas reparar que na mão direita faltavam os dois últimos dedos.
"Foi o mar. Ele me tirou muita coisa, menos o que eu queria que ele tirasse."
Conversamos então um pouco, em português mesmo. Quando alguém entrava ele tinha a cortesia de falar em inglês, mas assim que saíam ele voltava a falar em português, gostava muito de falar, era articulado, vocabulário extenso, percebi sem muito esforço que era um homem inteligente, a despeito de sua aparência quase fantasiosa de Capitão Pirata.
Ele me contou como tinha chegado ao Alaska 20 anos atrás em busca de emprego nos barcos de carangueijo, a dificuldade que teve em arrumar emprego, mas tudo foi compensado na primeira temporada no mar, ganhou muito dinheiro, resolveu ficar mais algum tempo e a cada temporada ganhava mais e mais, enquanto economizava pra comprar seu próprio barco. Estava no Alaska há 6 anos quando sofreu o acidente, um guindaste despencou em cima dele. Perdeu o olho, dois dedos e a perna, quase morreu na verdade.
Sem mulher e filhos no Brasil e desfigurado pelo acidente, ele desistiu do amor, resolveu ficar no mar pro resto da vida, nunca mais foi ver a família ou sua terra natal. Vez ou outra recebia uma foto do mais novo bebê ou a notícia do morto mais recente, mas pouco se importava, jamais voltava, jamais mandava notícias. Logo pararam de incomoda-lo, mas sabiam que ele estava lá em algum lugar, naquele deserto gelado.
"Do que você fugiu Jr.? Por que veio pra cá?" Eu não soube bem o que responder, sabia no meu íntimo a resposta, além de trabalhar, ganhar dinheiro e agradar meu pai, eu estava fugindo de algo. De alguém. Dela. Achei que seria honesto contar ao meu velho tio tudo sobre Julia. Emocionado eu dei detalhes dos nossos desencontros e de como eu gostava dela, mas o destino nos impedia de estarmos juntos. Assim que terminei, meu tio sorriu. O sorriso virou uma gargalhada rouca e grave. Ele terminou sua jarra de uísque depois disso.
"Eu também fugi de uma garota quando vim pra cá Jr. Por isso eu ri, tudo é tão repetitivo, elas sempre são perfeitas, nós nunca podemos suportar a idéia de viver sem elas e mesmo assim, aqui estamos nós, no meio do nada. Fugir não resolveu pra mim garoto e não vai resolver pra você. Trabalhe aqui comigo esse inverno, mas volte pra casa assim que puder e lute por ela! Não se pode fugir de si mesmo, eu não te culpo por tentar, mas aproveite o conselho de quem já tentou e falhou. Ficar aqui sozinho só vai fazer piorar."
Eu trabalhei no Merrow o inverno todo, voltei totalmente mudado pra casa, meu pai estava certo. Meu tio, o Capitão Troll, fez de mim um homem. Quando eu voltei, Julia tinha secretamente esperado por mim, namoramos e dois anos depois íamos nos casar. Fiz questão de enviar um convite de casamento ao meu tio, mas ele nunca veio como eu imaginei que não viria.
O mais triste foi receber a notícia de que no dia do meu casamento, sozinho dentro do Merrow, com a barba feita e o cabelo cortado, sóbrio como não estivera em anos, meu tio usou uma corda para se enforcar. Os médicos disseram que ele quebrou o pescoço na queda. Ser tão grande deve ter valido a pena pra ele no final.
Dos relatos de A. G. Silva Jr. dezembro de 2034
quinta-feira, 9 de julho de 2009
A Marca da Proteção
Assim que ficou acertado que nós iríamos nos ver, tive a idéia de levar-lhe uma flor. Já tinham me dito que era uma coisa muito bonita e eu honestamente nunca havia dado uma flor pra ninguém antes. A garota certa merecia o gesto certo. Uma garota especial merecia um gesto especial.
No caminho para ir ve-la, la fui eu, alargador na orelha, ferradura no nariz, camiseta do Karate Kid, entrei na floricultura sem cerimônia e tirei de lá a rosa mais bonita que encontrei.
No momento apropriado da conversa, saquei a rosa e a entreguei. Ela muito emocionada me deu um morno beijo na testa.
Espera aí... NA TESTA?
Admito que fui pra casa me sentindo profundamente humilhado, mas pensador incansável que sou, analista e estrategista do comportamento humano, resolvi entender melhor do que se tratava um beijo na testa.
O material para pesquisa é muito escasso e não existe fonte confiável da qual tirar uma conclusão. Loucamente percorri a internet buscando as origens daquele ato, culturas nas quais ele fosse comum, mas depois de pouco mais de três horas de pesquisa, eu consegui uma pilha quentinha de NADA. Não contente passei a procurar em fóruns e até mesmo questionar alguns amigos.
Combinandos todas as respostas, a resposta final então surgiu no horizonte de minha mente e parecia unânime. Um beijo na testa é um sinal de respeito, uma mostra de profundo carinho e uma prova de ADMIRAÇÃO (palavrinha que tem me perseguido nos últimos meses). Eu até vi lá um maluco que falava que beijar a testa era o mesmo que beijar o terceiro olho místico de alguém, beijando assim a sua alma. Mas enfim, maluquices à parte, parece que eu estava errado me sentindo humilhado frente a uma atitude tão bela, isso senão mais bela, do que a flor que eu entreguei.
Respeito, admiração, profundo carinho, sentimentos bons condensados num único gesto que ela realizou com tanta delicadeza e ternura que agora, que eu tive tempo pra pensar melhor sobre isso, é tudo no que eu consigo pensar.
Quando eu fecho meus olhos, se eu me concentrar, ainda consigo me lembrar da sensação. Aqueles curtos dois segundos em que ela foi até mim e me deu aquela marca de proteção.
Quem diria, talvez ela tenha mesmo beijado a minha alma.
Gordon "Troll" Banks
No caminho para ir ve-la, la fui eu, alargador na orelha, ferradura no nariz, camiseta do Karate Kid, entrei na floricultura sem cerimônia e tirei de lá a rosa mais bonita que encontrei.
No momento apropriado da conversa, saquei a rosa e a entreguei. Ela muito emocionada me deu um morno beijo na testa.
Espera aí... NA TESTA?
Admito que fui pra casa me sentindo profundamente humilhado, mas pensador incansável que sou, analista e estrategista do comportamento humano, resolvi entender melhor do que se tratava um beijo na testa.
O material para pesquisa é muito escasso e não existe fonte confiável da qual tirar uma conclusão. Loucamente percorri a internet buscando as origens daquele ato, culturas nas quais ele fosse comum, mas depois de pouco mais de três horas de pesquisa, eu consegui uma pilha quentinha de NADA. Não contente passei a procurar em fóruns e até mesmo questionar alguns amigos.
Combinandos todas as respostas, a resposta final então surgiu no horizonte de minha mente e parecia unânime. Um beijo na testa é um sinal de respeito, uma mostra de profundo carinho e uma prova de ADMIRAÇÃO (palavrinha que tem me perseguido nos últimos meses). Eu até vi lá um maluco que falava que beijar a testa era o mesmo que beijar o terceiro olho místico de alguém, beijando assim a sua alma. Mas enfim, maluquices à parte, parece que eu estava errado me sentindo humilhado frente a uma atitude tão bela, isso senão mais bela, do que a flor que eu entreguei.
Respeito, admiração, profundo carinho, sentimentos bons condensados num único gesto que ela realizou com tanta delicadeza e ternura que agora, que eu tive tempo pra pensar melhor sobre isso, é tudo no que eu consigo pensar.
Quando eu fecho meus olhos, se eu me concentrar, ainda consigo me lembrar da sensação. Aqueles curtos dois segundos em que ela foi até mim e me deu aquela marca de proteção.
Quem diria, talvez ela tenha mesmo beijado a minha alma.
Gordon "Troll" Banks
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