segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Já dizia Don Ramón...

Certa vez, um filho da puta qualquer resolveu que deveríamos acordar às seis da madrugada, pra passar oito horas do nosso dia com pessoas que mal toleramos, em troca de DINHEIRO. A quantidade de dinheiro não seria proporcional a quanto você sabe ou tem a oferecer, mas a quanto você pode fazer pelo seu explorador (também conhecido como patrão). Recusar ou reclamar demais dessa grandiosa oportunidade vai te fazer ser visto como um vagabundo, um comunista, ou pior, um sonhador. Todas as pessoas odeiam essa obrigatoriedade, mas são idiotas demais pra fazer qualquer coisa a respeito. Amam demais os seus smartphones, apartamentos e automóveis. Mesmo à beira da loucura e considerando o suicídio, um indivíduo deve continuar trabalhando, sendo produtivo e ser grato pela oportunidade de ganhar DINHEIRO. Sem dinheiro não se vive. DIZEM. Acredito que, algumas pessoas gostam de ir ao trabalho somente para observar aqueles que odeiam o trabalhando, definhando.

Trabalhar geralmente envolve uma seqüência predeterminada de atividades entediantes, tais como, sentar na frente de um computador produzindo relatórios, carregar objetos pesados, dirigir pela cidade e atender as necessidades de pessoas que você não quer atender. As oito horas (que podem se tornar 10, 12 ou mesmo 14 numa cidade grande) que você dedica ao seu trabalho, são problema seu. O trabalho te faz acreditar que receber DINHEIRO em troca das suas preciosas horas, compensa. NÃO COMPENSA. Mas te faz acreditar que compensa. Smartphones, tevês de tela grande, vídeo-games, automóveis. SUBORNOS. Lembre-se sempre que, até que se prove o contrário, o tempo é linear e não podemos recuperar nossas horas perdidas no escritório, na fábrica, na agência. Nossas vidas escoam pelos ralos das empresas. Mas o trabalho te faz acreditar que vale a pena. NÃO VALE. Mas te faz acreditar que vale.


Enquanto isso, nós vivemos essas tentativas patéticas de DAR O TROCO no trabalho. Enrolamos no bebedouro e no almoço, cochilamos no banheiro, chegamos atrasados e saímos 10 minutos mais cedo. Nenhum levante social. Ninguém vai às armas. Continuamos trabalhando, como bom GADO.

Em algum lugar do inferno, o cara que inventou o trabalho, gargalha.

domingo, 1 de dezembro de 2013

O Inferno de Gordon, parte XII: A Serpente Alada

A serpente rugiu, soprou labaredas púrpuras e cuspiu veneno, que choveu sobre tudo na sua frente. Moon Tyrant segurou Gordon pelas axilas e flutuou para longe, seguido pelo Golem e por Troll.

- Eu nunca vi nada parecido com isso. - Gordon admitiu, com ar preocupado.

- Tão grande assim, são raras. - Tyrant explicou. - Mas seus ovos estão espalhados por toda a parte no Vortex.

- E a culpa é minha... - Lamentou o Troll.

- Você não tinha como saber o que ele pretendia. - Disse Gordon. - Agora temos que pensar em como derrota-la.

- É aí que seus problemas começam. - Moon Tyrant fungou. - Somente Razão tem poder o bastante pra aniquilar uma serpente tão grande.

Como se adivinhasse que falavam dela, a serpente fez jorrar veneno na direção deles e tentou acerta-los com a cauda de chicote. As plumas multicoloridas se eriçavam toda vez que a criatura atacava. Seus olhos amarelos giravam loucamente nas órbitas.

Novamente se afastaram aos pulos do alcance do monstro.

- Razão está morto. Cabe a nós... - Gordon foi interrompido.

- Razão não está morto. Apenas fora de combate. - Tyrant parecia exasperado. - Nós vamos distrair a serpente e você vai até ele. Cure o anjo.

- Curar? Eu não saberia como cura-lo!

- Você tem o poder pra isso, Convicção. Você é o único healer na party, acredite em mim. - Riu uma risada tão seca e dolorida, quanto só mesmo o Tirano da Lua conseguiria.

Gordon se obrigou a pensar a respeito. Se acalmou. Convicção. Lembrou-se do seu nome e se sentiu, por uma fração de segundo, invencível. Lembrou-se de tudo que teve de passar pra chegar até ali. Todas as lições, os desafios. Sentiu um arrepio subindo pela espinha até a nuca.

Seus olhos, pela primeira vez em muitos anos, se abriram. Grandes, brilhantes, inflamados... amarelos.

Todos se afastaram um passo. Somente o Golem, com sua inocência, não pode perceber o que estava acontecendo. Gordon mudou. Continuava igual, mas bastava olhar pra ele e percebia-se que algo muito importante havia mudado.

Ele caminhou em silêncio na direção de Razão. A serpente o viu em seu caminho e rugiu alto. Mas antes que pudesse dar um bote, uma onda imensa de fadas azuis explodiu contra seus olhos. Elas gritavam, xingavam, imitavam cornetas e com seus pequeninos punhos, socavam cada centímetro da cabeça imensa do monstro. Foi o bastante para deixa-la distraí-da.

Gordon continuou caminhando até o local onde o anjo estava caído. Encontrou Sadismo no caminho.

- Vai ter que passar pro mim primeiro *shhhu*.

Gordon sorriu.


A SEGUIR: O Inferno de Gordon, parte XIII: Riding Insanity.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O Inferno de Gordon, parte XI: A voz da Razão.

As quatro figuras caminhavam por ruas douradas, ladeadas por prédios que lembravam mísseis feitos de ouro. Nada se movia ali. Nenhum barulho, nenhuma vida. A imensa cidade iluminada parecia paralisada de alguma forma.

- Tenho um mal pressentimento. - Moon Tyrant disse enquanto pegavam a avenida principal.

A via era imensa e levava ao que parecia um monumento, mas uma luz muito forte, azulada, não permitia que se visse exatamente o que estava ali além de pilares altos e armações circulares de metal prateado.

- Eu nunca o vi. Ele é tão impressionante quanto dizem? - O Troll perguntou a Gordon.

- Sim ele é. Um pouco mais impressionante do que dizem, eu acho. Ele vem e da o maior esporro na gente, mas geralmente isso faz tudo voltar ao normal. Você vai ver.

Continuaram caminhando pela avenida, pelo que pareciam ser horas, até que a luz finalmente pareceu se aproximar. Era um foco imenso de luz, que ofuscava tudo ao redor, mas aos poucos os olhos lutavam para se acostumar, até que Gordon pode ver exatamente o que estava acontecendo ali. Seu sangue gelou.

O monumento eram dois pilares de mármore branco com 15 metros de altura cada, aros de metal prateado e dourado que formavam um círculo gigante e vertical entre eles e no centro de tudo, preso por correntes que mais lembravam arame farpado, estava Razão.

O estado do anjo era deplorável. Sangrava por tudo que era lado, as correntes atravessavam sua carne em vários pontos, as seis asas pareciam estraçalhadas, uma delas inclusive haviam sido arrancada e jazia fria e imóvel no chão ao lado dele. Seu rosto, sempre radiante como um sol do meio dia, emitia uma luz azulada, muito mais fraca do que o normal, mas ainda ofuscante o bastante para esconder permanentemente seu rosto.

- Bom, eu estou impressionado. - Disse o Troll sem perceber que algo estava errado.

- Tyrant, Golem, vamos tira-lo dali! - Gordon mobilizou os outros. Mas quando se moveram na direção do companheiro moribundo, alguém saiu de trás de um dos pilares e se colocou em seu caminho.

- Ele fica aonde está. *Shhhii* - Disse o estranho.

Tinha uma aparência bizarra. Lembrava os irmãos Banks, mas era muito mais baixo e magro. Tinha a cabeça anormalmente larga e sua boca e mandíbulas eram cobertas de farpas de ferro, enfiadas na carne até 4 ou 5 centímetros de profundidade. As bochechas haviam sido rasgadas até a nuca e a bocarra metálica se abria muito toda vez que ele falava. A língua era uma serpente rosada, grossa e pegajosa, com 40 centímetros de comprimento, que entrava e saia da boca, lambendo as farpas de ferro e o sangue que brotava da carne vez ou outra. Suas mãos também eram cobertas de farpas, mas essas eram bem maiores e lembravam garras. Ele mexia constantemente nas farpas, fazendo as feridas frescas sangrarem e as velhas arderem. Quando havia sangue o bastante sem sua boca, ele fazia um som de sucção repugnante e mexia os lábios destruídos num sorriso macabro, apreciando o sabor do próprio sangue.

- Que porra é essa? - Tyrant deixou escapar, pasmo.

- Quem é você? O que está acontecendo aqui? - Gordon assumiu seu ar sério.

- Você vai me chamar de Sadismo. Nosso amigo ali está um pouco indisposto no momento *Shhhiirr*, melhor deixa-lo descansar. Enquanto isso, estou muito satisfeito com a sua presença aqui. Faz um bom tempo que *shhhhii* não nos vemos...

- Eu não te conheço. - Gordon disse, confuso.

- Eu não estou falando com você. *Slurrrp* Estou falando com ele. - Sadismo apontou uma de suas garras metálicas diretamente para o Troll.

Tyrant e Gordon trocaram olhares surpresos e se voltaram para o gigante.

- Do que isso se trata Troll? - Gordon perguntou.

O Troll ficou em silêncio, algo pareceu atormenta-lo por um momento, seus olhos ficaram úmidos, mas não disse nada.

- Não vai contar a eles? - Sadismo disse num riso.

O Troll permaneceu em silêncio, parecia angustiado.

- Acredito que você foi enganado, Gordon. *Slurrp* O Troll mentiu pra você a respeito de *Shiiir* quem ele realmente é.

- Do que ele está falando Troll? Isso é verdade?

- Ele se apresentou como Lealdade e Obstinação, mas seu nome na verdade é outro. Muito mais sombrio e *ssshhhiiiirrrrrr* perigoso.

- Calado. - O Troll falou com voz embargada.

- Você é uma mentira Troll. Andando por aí como se nada lhe importasse. *Sluurp* Quando na verdade você se importa. Você se importa muito. E isso lhe come por dentro *shh*.

- Eu disse "calado". - Uma pitada de raiva foi detectada por todos.

- Talvez você devesse se apresentar como insegurança, sabe? Talvez inveja *Shiir*. Vive por aí com lágrimas nos olhos porque não é bom o bastante. Porque não tem o bastante. *slurp*. A verdade é que você é a criatura mais patética desse lugar. Por que sua existência nega a si mesma *sshiiii*. Você se chama Fúria, mas de que adianta ser algo que você não pode demonstrar? De que adianta ser Força, se tudo que isso faz é te transformar num fraco? *sh*

- Fúria? - Gordon pareceu confuso.

- Eu disse... "calado". - Seus punhos cerraram e numa fração de segundo, ele se lançou contra Sadismo.

O primeiro soco, como Gordon se lembraria anos mais tarde, foi algo impressionante. O Troll voou os poucos metros que o separavam do alvo e lhe acertou um cruzado de direita no queixo que lançou Sadismo contra uma das pilastras e provocou uma onda de choque que derrubou os demais presentes, incluindo o Golem.

Cego de raiva, ele continuou avançando e socando o alvo com toda a força que tinha. Os músculos pareciam tentar romper a pele cada vez que o Troll os retesava para o próximo golpe. Seus olhos escorriam lágrimas, mas era impossível saber exatamente o que estava acontecendo com ele, raiva, alegria ou talvez a dor que o próprio corpo monstruoso provocava a cada golpe titânico.

Sadismo apenas recebia os golpes sem nenhuma condição de se defender ou desviar. Seu corpo lembrava um boneco de pano sendo lançado toda vez que o Troll lhe socava. A surra continuou por vários minutos, Gordon e os outros incapazes de fazer qualquer coisa.

Então, algo surgiu no horizonte.

De todas as direções, uma energia azul vinha em ondas na direção do combate. Quando as ondas finalmente quebraram sobre a cena, Gordon percebeu do que se tratava. Bilhares de fadas azuis, gritando, rindo, falando no seu idioma de faz de conta e voando enlouquecidamente ao redor de tudo e de todos.

Mesmo o Troll, no estado de fúria em que se encontrava, teve de parar pra observar o que estava acontecendo. Sadismo ficou caído num canto, próximo a Razão.

- Elas voltaram. - Gordon sorriu. E as fadas gritaram excitadas e vieram se sentar sobre seus ombros, gargalhando.

O Troll se afastou de Sadismo e foi para perto de Gordon.

- Perdão. Eu devia ter dito quem eu realmente era.

- Não creio que isso realmente importe, Troll.

- Ah, mas importa sim...*shiiiiir*

Sadismo estava em pé ao lado de Razão. Suas garras longas estavam cravadas no coração do anjo.

- Sabe, somente uma fúria tão intensa quanto a do Troll poderia gerar o efeito que eu queria *sluurp*. Finalmente libertada, essa fúria é capaz de sobrepujar qualquer poder da Razão *shiiiiir*.

Ele puxou e Razão urrou de dor, trombetas soaram, explosões, animais rugiram, naquela voz que era uma amálgama. O coração do anjo foi arrancado.

- Somente uma fúria tão intensa, poderia criar no coração da Razão, a arma que eu precisava pra destruir o Vórtex. *Shhhiiii*. - Sadismo fatiou o coração com as garras, caçando algo dentro dele. - Ah, aqui está *sh*. - Ergueu as garras, que seguravam delicadamente um pequenino ovo negro.

- O que você está fazendo? Não! - Moon Tyrant pareceu ser o único a entender.

Sadismo jogou o ovinho no chão. Ele se partiu e de dentro dele saiu uma pequenina serpente alada que rosnou como somente um filhote o faria. Mas então, num piscar de olhos, a serpente cresceu. E cresceu. E cresceu tanto que em segundos, tinham mais de 100 metros de comprimento, sua cabeça a vinte metros de altura. O monstro rugiu e disparou labaredas roxas pela boca com as asas imensas abertas num desafio a qualquer um que ousasse se opor ao seu poder.

- O que é aquilo? - Gordon perguntou.

- Loucura! *shiiirr*


A SEGUIR: O Inferno de Gordon, parte XII: A Serpente Alada.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O Inferno de Gordon, parte X: O Tirano da Lua.

O foguete viajava numa velocidade incrível, rasgando o espaço como uma agulha. O Golem, quase uma nave viva acoplado ao sulco no casco do projétil gigante, parecia concentrado em leva-los na direção correta. Lá dentro, Gordon e o Troll estavam sentados desfrutando da turbulência.

- Chacoalha um bocado. - Disse Troll com ar nauseado.

- Pense nisso como um brinquedo de parque de diversões Troll. É divertido! - Gordon queria a todo custo evitar que o gigante viesse a vomitar, seria desastroso.

Troll ficou em silêncio, provavelmente tentando imaginar que havia alguma diversão em ficar balançando numa precária nave no meio do espaço. Gordon se perdeu em seus próprios pensamentos.

- Hey! Onde estão as fadas azuis? - O rapaz se deu conta pela primeira vez de que elas sumiram.

- Não as vejo desde que saímos do meu ginásio. - Disse o Troll.

Gordon coçou o queixo pensativo, mas desistiu, estavam longe demais pra voltar e procura-las, a jornada teria que seguir sem inspiração nenhuma.

A Lua crescia numa das janelas laterais, se aproximando mais e mais, até que a nave pareceu diminuir sua velocidade, estavam pousando.

O foguete desceu verticalmente sobre a superfície desértica da Lua, pousou e ficou ali em pé como estava no laboratório antes de partir. A porta se abriu e desceram os passageiros vestindo trajes espaciais brancos, enquanto Golem se desconectava da nave pra também pousar levemente no chão.

Gordon caminhou levemente naquela gravidade afetada e percebeu que na frente deles, esperando-os, estava um homem. Era alto e forte, muito musculoso, mas com uma aparência amarelada e doente. Sobre os ombros escorria uma capa negra de vinil e na cabeça, uma estranha coroa, que parecia ser feita de carne mumificada. Tinha nove pontas.

- Tire essa roupa idiota. - Disse o homem com grosseria.

Gordon não entendeu bem.

- A gravidade e a falta de oxigênio são ilusões que você criou com essa roupa. Remova-a.

Desconfiado Gordon abriu um dos grampos de seu capacete e ficou surpreso ao perceber que o ar não tentou fugir para o vácuo do espaço. Removeu o capacete e logo toda a roupa de astronauta. Troll fez o mesmo.

- E agora Moon Tyrant? - Gordon perguntou ao homem com a coroa.

- Agora você me segue, vamos conversar. Seus amigos ficam aqui. - Ele disse com olhares de desprezo ao Troll e ao Golem.

Partiram pra longe do foguete e dos dois gigantes. Caminhavam pela paisagem nula da Lua, o imenso deserto cinza e rochoso.

- E começou novamente...tudo de novo. Qual o seu problema moleque? - Moon Tyrant disse mal-humorado.

- Não entendi a pergunta. - Gordon disse visivelmente confuso.

- Você se deixou abalar novamente! O Vortex está em perigo novamente por causa de 47 quilos de carne e um par de olhos castanhos! Porra Gordon! Qual é o seu maldito problema?

- Eu gostava dela, achei que fosse certo. Ela pareceu gostar quando eu disse... - Ele foi interrompido.

- Você disse que gostava dela? Você disse que GOSTAVA dela? Seu cretino! Você não pode dizer esse tipo de coisa! As pessoas não querem que você goste delas Gordon! As pessoas querem ser odiadas, desprezadas, elas querem sofrimento, dor, dúvida! As faz sentirem vivas! Querem ser os vilões de suas pequenas fantasias, pois assim não se sentem vítimas de suas próprias vidas miseráveis! HAHAHA! Vejam só, "gostava dela", é um idiota mesmo! HAHA!

Gordon ficou em silêncio, constrangido ele pensava na verdade contida naquelas palavras duras e debochadas.

- Ela era o fio dourado que não podia ser cortado na teia de Ananasi. - Gordon disse timidamente.

- Eu sei. Essa jornada toda, por causa de uma mulher. Chegar à beira da loucura por isso. Terminou o ciclo.

- Ciclo?

- Nove Rainhas, nove anos de sofrimento. O ciclo das Nove Rainhas terminou. Conte e vai ver.

Mentalmente Gordon se lembrou de nove nomes e nove anos de sofrimento ligados àqueles nomes. Moon Tyrant tinha razão.

- E agora? A jornada terminou?

- Ha! Você bem queria que fosse tão fácil assim não é? - Moon Tyrant riu com amargura. - Não, não terminou. Você está livre das Nove Rainhas, mas não da loucura que elas plantaram em nossa mente. Ainda temos que dar um jeito de não enlouquecer, ou tudo estará perdido.

- Nós?

- Eu vou com você a partir de agora. Nossos amigões ali também. - Apontando pra frente, o tirano mostrava o Golem e o Troll à frente deles, tinham dado uma volta inteira sobre a Lua enquanto conversavam.

- Quem é o próximo? - Gordon perguntou.

- Só falta um, você sabe quem é.

Espantando o pensamento sobre o próximo personagem a ser visitado, o rapaz parou de andar o que chamou a atenção de Moon Tyrant.

- O que foi? - Indagou o Tirano.

- Não era ela. Não era nenhuma delas. Era?

- Sempre a mesma pergunta Gordon... - Tyrant pareceu impaciente. - Não, não era nenhuma delas. As Rainhas só tinham a função de te dar experiência. Do jeito mais difícil, através da dor. Mas agora que o ciclo terminou, estamos livres. Não era nenhuma delas e provavelmente não será a próxima, nem a próxima. Nunca é ela entende? Ambição.

Gordon não respondeu e caminhou na direção do foguete novamente.

- Troll, Golem, vamos indo! Tyrant vai com a gente.

- Nós não vamos mais usar esse foguete, existem meios mais eficientes de viajar. - Moon Tyrant pegou uma lapiseira azul e começou a desenhar um imenso retângulo no chão, depois deu mais detalhes ao desenho e todos viram que era uma porta. Quando ele terminou, a porta brilhou e se ergueu do chão, materializando madeira e metal aos adornos do desenho. Ele girou a maçaneta e a porta se abriu.

Além da porta, pouco se via além de uma luz forte. Moon Tyrant entrou e foi seguido por Gordon, depois Golem e finalmente o Troll, o mais alto de todos eles, que precisou se abaixar muito pra passar. A porta bateu e se fechou, aos poucos, ela se desfez e deixou apenas a superfície lunar na paisagem. Ao fundo, um foguete prateado e o universo, borbulhando de estrelas.


A SEGUIR: O Inferno de Gordon, parte XI: A Voz da Razão.


[Pra quem não aguenta mais, ta terminando, huahauhauhauha, programei pra terminar no Capítulo XIII, então, logo vcs não tem que aturar mais as minhas brisas incompreensíveis nem minhas lamentações intermináveis XP]

sábado, 13 de março de 2010

O Inferno de Gordon, parte IX: Heavy Metal.

Chovia bastante, mas debaixo das telhas da plataforma na estação de trem, Gordon e Desepero, estavam relativamente protegidos. Já o Troll, estava sentado nos trilhos olhando pros lados distraidamente, ja completamente molhado, mas incapaz de entrar debaixo da cobertura devido o seu tamanho.

Ouviram de longe a corneta anunciando que o trem se aproximava da estação, Troll se levantou e se afastou dos trilhos indo pro outro lado da estação. Gordon e o urso se aproximaram da faixa amarela, uma voz nos megafones da estação disse claramente:

- Não ultrapasse essa porra dessa faixa amarela cacete! Quer morrer por acaso idiota? Quer ficar maneta? É isso? Quer cair na porcaria do trilho e o ser atropelado e virar um maneta de merda? Você é algum tipo de idiota que não gosta dos seus membros? Aí fica de macaquice na plataforma tentando ser multilado por trens?

A voz continuou reclamando e xingando enquanto o trem chegava e diminuia a velocidade aos poucos ao lado da plataforma, isolando o gigante do outro lado. As portas se abriram e Gordon entrou, o vagão estava vazio. Desespero entrou em seguida e se alojou no chão do lado oposto do vagão.

- Venha Troll! - Gordon gritou pela janela.

- Vou correr ao lado do trem, não se preocupe! - Sorriu. - Preciso de exercício!

O rapaz ficou preocupado, afinal o tempo se passava de forma diferente no vortex como ele sempre percebia. Mas lembrou-se também da primeira vez em que encontrou o Troll e ele já passava dos novecentos milhões de flexões. Talvez o gigante realmente fosse apreciar o exercício.

Um sinal sonoro avisou que as portas iam se fechar. O trem lentamente começou a se movimentar sobre os trilhos. Estavam num vagão comum de passageiros, o trem era urbano e as únicas janelas estavam dos lados dos vagões onde se via a paisagem, mas não se via pra onde estava indo.

O trem seguia chacoalhando de leve deixando Gordon calmo e sonolento. Do outro lado, Desespero cochilava respirando alto, as garras arranhando o assoalho emborrachado. A velocidade gradualmente aumentou e logo o trem ia bem rápido com o Troll correndo ao lado, cada passo seu retumbando poderosos como trovões.

Gordon começou a cochilar e tinha lampejos de sonhos. Via garotas, lugares, todos muito familiares. Viu uma linha de metrô. Quando despertou se deu conta de que estava na mesma linha de metrô do sonho, mas aquilo não era agradável, o metrô corria muito e os lugares pra onde estavam indo lhe traziam más lembranças. As luzes do vagão piscavam e Desespero dormia tranquilamente enquanto o vagão ganhava mais e mais velocidade, o gigante já não corria ao lado do trem.

As luzes de repente se apagaram e Gordon teve a certeza de que algo estava errado, o destino que ele queria evitar se aproximava e do outro lado do vagão o urso se levantou com seus olhos negros cheios de maldade.

- Chegou a hora Banks. Só você e eu. Vou devora-lo seu homenzinho patético! - O urso disparou na direção do jovem e atacou com as patas potentes de garras de navalha. Gordon se abaixou e os bancos foram atingidos e destroçados pelo monstro.

- Desespero, pare! - Gordon ordenou, mas o urso riu e ignorou a ordem, novamente atacou e fez o jovem dar um pulo desajeitado pro lado. A pata imensa atingiu o fundo do vagão e estraçalhou a madeira fina deixando um buraco na frente do trem. Gordon olhou de relance e percebeu que aquele único vagão estava sobre os trilhos naquela velocidade sem nenhum maquinista.

Gordon correu pelo lado de urso, que golpeou as janelas e fez chover vidro. Conseguiu chegar do outro lado do vagão o rapaz e olhou pela janela, nem sinal do Troll. Desespero engordou 100kg e atacou novamente, quase nem cabendo mais dentro do vagão apertado de teto baixo. Sua garra destruiu o fundo do vagão e Banks desviou bem a tempo de passar correndo pelo lado da besta novamente.

O trem pareceu diminuir de velocidade, o destino cruel se aproximava, Gordon não queria chegar lá, onde quer que fosse, tanto quanto não queria ser devorado pelo urso imenso.

- Desespero, pare! Te ordeno que pare!

A velocidade diminuiu ainda mais, estavam parando.

- Fique onde está!

O trem finalmente parou.

O urso olhou para Banks com crueldade e avançou, mas jamais alcançou seu alvo.

Um braço imenso, roliço e metálico estourou a lateral do vagão e agarrou o urso pela garganta. A besta foi puxada pra fora pelo buraco, se cortando e se machucando no processo. Gordon olhou pra fora por uma das janelas destruídas pra saber o que acontecia.

Um imenso construto de metal, com mais de 5 metros de altura e aparentando ser uma armadura medieval lutava contra Desespero. Gordon deixou um sorriso invadir seu rosto e disse aliviado enquanto assistia ao combate:

- Golem!

O Golem socava Desespero com punhos duros e impiedosos, o urso grunhia de dor a cada golpe do adversário, que era ainda maior que ele mesmo. Tufos de pelo marrom voavam no ar misturados com sangue. O urso tentou reagir e cravou as presas no ombro da armadura, mas foi ignorado, o Golem não sentia dor. Agarrou Desespero e o atirou no ar, durantes segundos pode-se ver aquele urso imenso rodopiando sem gravidade, quando voltou na direção do chão, foi atingido com mais um poderoso soco que o atirou contra uma coluna de concreto daquela paisagem estranha. O urso desmaiou com o impacto. O Golem virou seu elmo para Gordon, a pequena fresta para os olhos estava vazia, era apenas uma armadura. O titã de metal então agarrou a cabeça do adversário derrotado e antes que o jovem Banks pudesse fazer qualquer protesto, arrancou a cabeça do urso sem esforço, espalhando sangue e pelos pelo chão.

Gordon saiu do trem e caminhou até o Golem:

- Estava imaginando quando você ia aparecer.

Não obteve resposta, o Golem não falava. Gordon olhou então em volta, queria saber onde estava. Era uma velha estação de metrô, mas estava abandonada, concreto e mato por toda parte, as escadas rolantes congeladas no tempo, lotações estacionadas para sempre. Viu uma placa que indicava uma estação da linha vermelha do metrô, mas a placa estava gasta demais pra saber exatamente que lugar era aquele. O rapaz estremeu por dentro, sabia onde estava, só que não queria dizer em voz alta.

- Vamos embora daqui Golem. - Saiu andando na direção pela qual tinha vindo e foi seguido de perto pelo colosso de ferro.

Ao longe ouviram som de trovões. Foram ficando mais próximos, até que finalmente surgiu o Troll correndo como um louco, suado e com ar preocupado.

- O que aconteceu? O trem disparou, não consegui correr tanto.

- Desespero tentou me devorar, mas o Golem me ajudou a tempo.

- Ah Golem, que prazer! - Troll estendeu a mão que ficou no ar sozinha por 4 longos segundos, o Golem apenas olhava pra ele sem reação.

- Ele é a inocência do Vortex Troll, não fala, não pensa, apenas age. Não fique ofendido, ele nunca comprimenta ninguém.

O Troll recolheu a mão magoado e os três se colocaram a andar novamente na direção de onde tinham vindo, deixando a macabra estação de metrô para trás. Seguindo os trilhos, acharam uma bifurcação que levava na direção que deveria ter ido desde o começo.

- Agora esperamos o trem. - Gordon disse sentando-se no chão.

Em poucos minutos viram novamente um trem se aproximar, lhe faltava um vagão. Parou e abriu as portas, Gordon examinou com cuidado e subiu, deixando os gigantes do lado de fora. O trem chacoalhou e se colou na caminho correto da bifurcação. A paisagem foi mudando conforme a viagem prosseguia, cada vez mais prédios e torres de metal, shoppings e hoteis, fábricas, muitas fábricas, logo era claustrofóbico a quantidade de ferro ao redor, era uma cidade imensa, uma metrópole que pulsava como o coração de uma entidade gigante e mecânica, Gordon soube que estava onde precisava estar, sua cidade natal, Santo André.

O trem foi parando finalmente na estação de Santo André e as portas se abriram. O rapaz desceu e olhou o trem partir, viu de longe que um trem de carga se aproximava e viu num dos vagões abertos o Golem e o Troll sentados. Saltaram na estação junto com o jovem e saíram pras ruas caóticas da cidade onde tudo era metálico e brilhava com neons chamativos e, às vezes, sem nexo algum.

- Pra onde estamos indo afinal? - Perguntou o Troll, absolutamente deslocado na cidade, vestindo apenas seu short de treino e com os músculos inchados à mostra.

- Não sei bem, mas imagino que tenha algo a ver com o Golem. - Respondeu Gordon.

O Golem não disse nada e continuou caminhando um pequeno passo a frente dos dois, o que deu a Gordon a segurança de que realmente deviam segui-lo.

Caminharam por toda a cidade, pararam pra comer em todos os restaurantes, viram espetáculos no teatro municipal, visitaram bordéis, dormiram em hotéis, beberam nos bares e se divertiram como nunca. O tempo, que era favorável no Vortex, não passou e gastaram apenas uma noite pra fazer tudo que levariam meses pra fazer no mundo real. Gordon não pode deixar de sentir que aquela era a última refeição de um condenado à morte. Ainda tinha uma missão e uma jornada a cumprir.

Seguiram o Golem então até uma torre negra de metal que sempre viam distante, mas nunca se aproximava não importando em qual lugar da cidade estivessem. Pelas ruas e meios certos, ela passou a ficar mais e mais próxima deles, até que estavam aos pés daquele monumento ridiculamente grande, um prédio. Subiram vários andares e lá dentro o Golem e o Troll não tinham problemas pra passar pelas portas e escadas, tudo era proporcional ao tamanho descomunal dos dois, que faziam Gordon se sentir uma criança o tempo todo.

Chegaram ao último andar e o jovem teve uma sensação de De Javu, aquele laboratório eta familiar, computadores pra todos os lados e no fundo algo enorme coberto com um lençol ainda maior.

- O que é aquilo? - Perguntou o Troll.

- Não sei, mas vamos descobrir. - Gordon foi na direção da coisa e puxou o lençou que saiu dramaticamente de cima daqueli que escondia.

Era uma nave. Parecia um foguete antigo, mas no meio existia um sulco num formato peculiar...no formato do Golem.

- Nós vamos voar nisso Golem? - Gordon perguntou e foi devidamente ignorado pela armadura como sempre.

O Golem começou a escalar a nave e se colou em seu lugar, encaixado no sulco. A nave pareceu ligar e os motores fizeram barulho e soltaram um pouco de fumaça. Na lateral, uma porta grande o bastante para o Troll se abriu.

É isso. Vamos. - Gordon entrou na nave acompanhado pelo irmão gigante.

A nave se fechou. Uma sirene soou alto no laboratório e o teto começou a abrir. Os motores rugiram quando o Golem acelerou e fez a nave decolar finalmente. Subiram verticalmente deixando um rastro de fogo e fumaça no céu.

- Pra onde nós estamos indo Gordon? - Troll perguntou parecendo um pouco enjoado.

- Pra lua!


A SEGUIR: O Inferno de Gordon, parte X: O Tirano da Lua.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O Inferno de Gordon, parte VIII: O Terceiro Irmão Banks.

Ha quanto tempo caminhavam sem jamais parar pra descansar Gordon já nem se dava mais conta, a jornada presseguia no Vortex, onde o tempo passava de forma diferente. Os dias às vezes podiam durar 30 horas e as noites 16 anos, não se tinha jamais certeza sobre o clima, chuvas de pedra ou de pétalas de flores, assim era aquela terra caótica.

Estavam andando numa região montanhosa, Gordon e Desespero, lado a lado. Eram seguidos de perto pelas fadas azuis que gritavam incoerências em sua linguagem de formiga apenas para ouvirem o eco de suas vozes, que às vezes respondia coisas absolutamente diferentes do que elas haviam dito. Morriam de rir quando isso acontecia.

- Criaturas obtusas. - Resmungou o urso.

- Parece divertido, vamos tentar rabugento. - Gordon foi até a beira do precipício rindo e gritou. - Olá! Tem alguém aí?

O eco respondeu:

- O gosto de sangue na boca lhe agrada!

Desespero estremeceu e fitou Gordon com seriedade:

- Esse lugar é sinistro, vamos embora.

Continuaram caminhando por mais horas sem conta e num planalto acima das montanhas avistaram uma construção. Era grande e espaçosa, cercada de vidro por todos os lados. Gordon achou estranho a princípio, mas finalmente reconheceu o lugar como sendo uma academia.

De perto, o ginásio era ainda mais impressionante, muito alto, e os aparelhos lá dentro pareciam ter um tamanho descomunal. Todas as luzes estavam apagadas e um labirinto de barras de ferro se estendia lá dentro. Não se via nada muito além de dois metros dos vidros.

- Vamos entrar. - Banks sentenciou.

A porta de frente era automática e se abriu quando eles se aproximaram, fechou-se então quando eles passaram por ela. A escuridão opressiva lá dentro só era quebrada pela luz azulada das fadinhas que esvoaçavam ao redor de Gordon deixando tudo com um ar fantasmagórico. Desespero ia logo atrás com dificuldade pra se mover nos corredores estreitos de aparelhos de ginástica.

Tleng! - Ouviram um som ao longe, foram na direção dele.

O labirinto os levou pra dentro do ginásio, mais e mais, de fora o lugar não parecia tão grande assim.

- Novecentos milhões oitocentos e quarenta mil e dois... - Ouviram um sussurro audível. - Novecentos milhões oitocentos e quarenta mil e três... - Tleng! - Novecentos milhões oitocentos e quarenta mil e quatro...

Depois de uma curva fechada Gordon se viu numa clareira no labirinto. Tudo convergia para aquele único lugar onde no centro um homem imenso levantava pesos descomunais que marcavam 100t. cada. No escuro ele prosseguia em seu exercício sem se dar conta dos visitantes.

- Novecentos milhões oitocentos e quarenta mil e cinco... Novecentos milhões oitocentos e quarenta mil e seis...

- Ahn, com licensa? - Gordon falou sem tentar surpreender o atleta épico.

- Hum? - Viram a cabeça do homem se voltar pra eles no escuro. - Minha nossa já é tarde! Já chegaram! Mil perdões!

O homem largou sua barra sobre o suporte que rangeu ameaçadoramente, depois se levantou com agilidade e para Gordon, pareceu que ele nunca terminaria de se levantar, era um gigante de seis, talvez oito metros.

- Eu sabia que estavam vindo, mas perdi a noção do tempo, sabem como é, não vemos o tempo passar quando estamos nos divertindo! - Ele sorria no escuro e tinha uma voz grave e simpática. - Deixem-me acender as luzes.

Ele bateu palmas e as luzes se acenderam finalmente revelando a real aparência do gigante. Era enorme e musculoso, cada parte do corpo inchada e tensa, vestia apenas um short simples e o corpo marombado era coberto de tatuagens aqui e ali, foi quando avistou o rosto do homem que Gordon finalmente o reconheceu. Seus rostos eram idênticos.

- Troll eu presumo.

- Sim, sim! Finalmente irmãozinho! Estava ansioso pra lhe conhecer! - Troll se aproximou e deu em Gordon um abraço de quebrar costelas. - Everton me avisou que você viria, ele me explicou tudo que esta acontecendo.

- E qual a sua história? Quem é você? - Desespero perguntou.

- Quem sou? Eu sou o Troll! O nome correto é Obstinação, mas eu prefiro Lealdade na verdade. Represento nossa capacidade de superar desafios, de jamais desistir!

- E como você pode me ajudar Troll? O que tem pra me ensinar? - Indagou Gordon.

- Não muito eu temo. Acho que basicamente eu devo dizer isso, jamais desista Gordon! Quando as chances forem pequenas, quando tudo parecer perdido, quando você estiver desanimado, quando o mundo todo estiver contra você, nunca desista! Esqueça o significado dessa palavra imunda! Desistir nunca é uma opção! Nem que você precise atingir seu objetivo de um milhão de maneiras diferentes, não se renda nunca! - Ele gritava muito alto e empolgado.

- Saquei. Vamos indo, tenho um Vortex pra salvar. - Gordon disse desinteressado.

- Já vão? Posso ir também?

- Claro, porque não? - Gordon continuou andando pra fora do labirinto.

Mais tarde, caminhando por alguma planície, Desespero se colocou ao lado do jovem.

- Que apatia toda é essa Gordon? Sentindo-se desesperado por acaso? - Riu.

- Só estou cansado, muito cansado de tudo isso. Tudo recai sobre mim e eu tenho dúvidas...

- Quais?

- Acho que a principal é, eu devo mesmo tentar salvar o Vortex?

Desespero se calou com um olhar espantado.

- Não me olhe assim. Vamos andando, o Troll disse que nossa próxima parada é Santo André, vamos ver um velho amigo. Um cara bem durão.


A SEGUIR: O Inferno de Gordon, parte IX: Heavy Metal.

terça-feira, 2 de março de 2010

O Inferno de Gordon, parte VII: O Sermão da Solidão e da Sabedoria.

Diante dos portões fechados do templo da flor de lótus, Gordon respirou fundo e deu um passo a frente. Os portões se abriram como que por mágica exibindo um imenso pátio de pedras quadradas. Num canto, deitado confortável sobre suas quase 3 toneladas, estava Desespero. A besta olhava o rapaz com seus olhos completamente negros e tinha um ar de riso. Parecia ainda maior do que há pouco quando quase o atacara. O Desespero crescia.

- Eu não tenho pressa. - Caçoou.

Gordon ignorou e continou andando até a porta de acesso. Entrou no templo pra descobrir uma construção de uma simplicidade incrível. O teto era muito alto, mas quase não haviam adornos em parte alguma, com excessão das vidraças coloridas que representavam grandes mandalas redondas. Bancos de madeira estavam dispostos ao longo das paredes e um altar pequeno estava no fundo do salão, repleto de fumaça azulada de incensos acesos. No centro, ambos sentados em posição de meditação, estavam o Cavaleiro e Beggar.

- Junte-se a nós Convicto. Por favor. - Disse o Cavaleiro em tom sereno.

Convicção se aproximou e não pode deixar de reparar que Solidão estava agora despido de sua camisa, a ferida enorme em seu peito pulsava infecciosa e uma grande quantidade de sangue escorria do ferimento o tempo todo, o colo do Cavaleiro estava encharcado de sangue escuro e fétido.

- Antes de tudo. - Disse Beggar. - Saiba que minha parte nessa jornada termina aqui Convicto. Eu vou permanecer no templo quando você se for. Sabedoria te guiou até aqui da melhor maneira que pode, mas depois do que você aprender aqui, só vai poder enfrentar a insanidade apoiado em outras coisas. As Princesas da Inspiração ainda se afeiçoam de você eu percebo, e o crescente Desespero que está do lado de fora também vai, de certo, querer acompanha-lo.

- Entendo. - Disse Gordon apático.

- Sente-se. - Solidão fez um gesto com a mão que apontava um lugar no chão a frente deles. Sentado ali, Gordon e os dois monges formariam um triângulo perfeito.

O jovem se sentou sem discutir. Olhou para Beggar e depois para o Cavaleiro, seu olhar era de desanimo e frustração.

- Sabedoria. - Iniciou o Cavaleiro.

- Solidão. - Continuou o monge-mendigo. - Tão distantes e ainda assim, tão próximos.

O altar soltou um chiado e a fumaça dos incensos subiu no ar com intensidade. Todo o ambiente se encheu com aquele cheiro doce e esotérico. Gordon sentiu suas pálpebras ficarem pesadas.

- Do que um dia foi Amor e hoje é Solidão... - Disse Beggar. - ...temos lições valiosas a aprender. De comedimento, auto-controle, desapego.

- Isso é claro Gordon... - Disse o Cavaleiro. - ...se você estiver disposto a aprende-las.

A fumaça do altar mais uma vez se lançou magicamente no ar, os olhos de Gordon ficaram mais pesados e no seu torpor semi-hipnótico, ele deixou um pequeno sorriso lhe dominar a face quando disse:

- Claro, me ensinem o que puderem.

- Feche os olhos e medite Gordon. - Disseram os monges em uníssono.

E quando Gordon fechou seus olhos e respirou mais uma vez aquela fumaça densa, o mundo a sua volta se transformou.

Ele caiu no espaço por longos segundos, desorientado e espantado. Então viu a seu lado Beggar e o Cavaleiro, que também caíam, mas estavam de pé e tranquilos. O Convicto tentou se ajeitar, mas foi tarde, bateu em algo.

A príncípio ele não entendeu o que era, sentia-se envolvido dos pés a cabeça, era difícil respirar. Mas então seu tato aos poucos reconheceu onde se encontrava. Estava de alguma forma envolvido numa cascata de cabelos longos e grossos. A sensação, embora alienígena, era muito agradável e Gordon se pegou tentando tragar aquele perfume delicioso.

- Da vontade de ficar aqui pra sempre não é? - Perguntou o Cavaleiro acima da "margem" do rio de cabelos perfumados.

- O que é isso? - Gordon flutuava em meio as madeixas, somente com a cabeça de fora. - Onde estou? De quem são esses cabelos?

- Não se acostume com esse toque Convicção. - Disse Beggar, que surgiu ao lado do Cavaleiro. - Embora confortável, a vida é impermanente, inconstante. Você tem que sair daí.

- Mas eu não quero, é realmente muito bom! Vocês deviam entrar aqui! - Gordon se segurou aos cabelos sem nem mesmo perceber.

- Temo que não Gordon. Você deve deixa-los soltos. Vamos, saia daí. - Disse o Cavaleiro estendendo a mão.

- Não! Não vou sair daqui! É tão... confortável e aconchegante. - Os cabelos que Convicção apertava estavam agora enrolando-se em seus braços e pernas, uma mexa se enrolou perigosamente em seu pescoço.

- O conforto que eles oferecem é vão Gordon. - Disse Beggar.

- E o preço que cobram, alto. - Terminou Solidão.

- Livre-se dessa ilusão! - Disseram juntos.

- Não...não quero...não...me deixem em paz. - Gordon estava sonolento, os cabelos agora o apertavam com força deixando marcas roxas em seu corpo. Ele finalmente começou a sentir dor. - Hey, que está acontecendo? Me solte!

- Se livre da ilusão Gordon. - Insistiu Beggar com firmeza.

Concentrando-se na maciez daqueles cabelos e naquele perfume enebriante, o Convicto colocou-se a pensar em como aquilo o prendia a sentimentos ruins. Afinal, era confortável estar ali, mas o sentimento da perda era insuportável. Grilhões.

Os cabelos se transformaram em correntes imediatamente, enferrujadas e fedorentas. Gordon escalou sua saída até os dois mentores que o aguardavam.

- Muito bem. - Disse Solidão. - Acabou de aprender talvez a lição mais valiosa que nós poderíamos te ensinar.

- Livre-se da ilusão Convicto. Não existe controle. Não existe controle sobre nada. - Disse Beggar. - Você deve se concentrar nos acontecimentos que a vida lhe entrega, não nas coisas que você agarra com unhas e dentes, não nas ilusões que você estrangula com seu desejo!

Gordon entristeceu-se, abaixou a cabeça. - Eu entendo.

Como se acordasse, as luzes se acenderam, estavam os três de volta no templo sentados no chão, o ar cheio de fumaça azulada e doce.

Solidão tinha no rosto a mesma expressão triste de Gordon, seus olhos estavam inflamados e parecia que o Cavaleiro ia chorar a qualquer instante. Beggar tinha o semblante sereno de sempre, austero e estóico.

Uma fadinha azul pousou no ombro de Gordon, ele pareceu voltar à realidade.

- Era só isso o que tinham pra me mostrar?

Solidão ficou em silêncio, Beggar se levantou:

- Tínhamos muito mais pra mostrar Convicto, mas eu acredito que você entendeu tudo com a primeira demonstração. A lição mais importante é o desapego. Não se entregue a sentimentos que você nem mesmo tem certeza de que estão lá, isso vai feri-lo mais do que qualquer coisa.

- Livrar-me da ilusão do controle. Vou meditar a respeito. Quem é o próximo?

Gordon saiu do templo seguidos pela costumeira revoada de fadinhas azuis, Desespero estava preparado para partir.

- Já posso te devorar agora?

- Cala a boca seu gordo idiota...

- Boca grande pra alguém que está pra ficar louquinho da silva. Pra onde vamos?

- Ver meu irmão.

- Nós já vimos Everton.

- Meu OUTRO irmão.


A SEGUIR: O Inferno de Gordon, parte VIII: O Terceiro Irmão Banks.
 
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
Permissions beyond the scope of this license may be available at 〈=pt_BR.