terça-feira, 26 de novembro de 2013

O Inferno de Gordon, parte XI: A voz da Razão.

As quatro figuras caminhavam por ruas douradas, ladeadas por prédios que lembravam mísseis feitos de ouro. Nada se movia ali. Nenhum barulho, nenhuma vida. A imensa cidade iluminada parecia paralisada de alguma forma.

- Tenho um mal pressentimento. - Moon Tyrant disse enquanto pegavam a avenida principal.

A via era imensa e levava ao que parecia um monumento, mas uma luz muito forte, azulada, não permitia que se visse exatamente o que estava ali além de pilares altos e armações circulares de metal prateado.

- Eu nunca o vi. Ele é tão impressionante quanto dizem? - O Troll perguntou a Gordon.

- Sim ele é. Um pouco mais impressionante do que dizem, eu acho. Ele vem e da o maior esporro na gente, mas geralmente isso faz tudo voltar ao normal. Você vai ver.

Continuaram caminhando pela avenida, pelo que pareciam ser horas, até que a luz finalmente pareceu se aproximar. Era um foco imenso de luz, que ofuscava tudo ao redor, mas aos poucos os olhos lutavam para se acostumar, até que Gordon pode ver exatamente o que estava acontecendo ali. Seu sangue gelou.

O monumento eram dois pilares de mármore branco com 15 metros de altura cada, aros de metal prateado e dourado que formavam um círculo gigante e vertical entre eles e no centro de tudo, preso por correntes que mais lembravam arame farpado, estava Razão.

O estado do anjo era deplorável. Sangrava por tudo que era lado, as correntes atravessavam sua carne em vários pontos, as seis asas pareciam estraçalhadas, uma delas inclusive haviam sido arrancada e jazia fria e imóvel no chão ao lado dele. Seu rosto, sempre radiante como um sol do meio dia, emitia uma luz azulada, muito mais fraca do que o normal, mas ainda ofuscante o bastante para esconder permanentemente seu rosto.

- Bom, eu estou impressionado. - Disse o Troll sem perceber que algo estava errado.

- Tyrant, Golem, vamos tira-lo dali! - Gordon mobilizou os outros. Mas quando se moveram na direção do companheiro moribundo, alguém saiu de trás de um dos pilares e se colocou em seu caminho.

- Ele fica aonde está. *Shhhii* - Disse o estranho.

Tinha uma aparência bizarra. Lembrava os irmãos Banks, mas era muito mais baixo e magro. Tinha a cabeça anormalmente larga e sua boca e mandíbulas eram cobertas de farpas de ferro, enfiadas na carne até 4 ou 5 centímetros de profundidade. As bochechas haviam sido rasgadas até a nuca e a bocarra metálica se abria muito toda vez que ele falava. A língua era uma serpente rosada, grossa e pegajosa, com 40 centímetros de comprimento, que entrava e saia da boca, lambendo as farpas de ferro e o sangue que brotava da carne vez ou outra. Suas mãos também eram cobertas de farpas, mas essas eram bem maiores e lembravam garras. Ele mexia constantemente nas farpas, fazendo as feridas frescas sangrarem e as velhas arderem. Quando havia sangue o bastante sem sua boca, ele fazia um som de sucção repugnante e mexia os lábios destruídos num sorriso macabro, apreciando o sabor do próprio sangue.

- Que porra é essa? - Tyrant deixou escapar, pasmo.

- Quem é você? O que está acontecendo aqui? - Gordon assumiu seu ar sério.

- Você vai me chamar de Sadismo. Nosso amigo ali está um pouco indisposto no momento *Shhhiirr*, melhor deixa-lo descansar. Enquanto isso, estou muito satisfeito com a sua presença aqui. Faz um bom tempo que *shhhhii* não nos vemos...

- Eu não te conheço. - Gordon disse, confuso.

- Eu não estou falando com você. *Slurrrp* Estou falando com ele. - Sadismo apontou uma de suas garras metálicas diretamente para o Troll.

Tyrant e Gordon trocaram olhares surpresos e se voltaram para o gigante.

- Do que isso se trata Troll? - Gordon perguntou.

O Troll ficou em silêncio, algo pareceu atormenta-lo por um momento, seus olhos ficaram úmidos, mas não disse nada.

- Não vai contar a eles? - Sadismo disse num riso.

O Troll permaneceu em silêncio, parecia angustiado.

- Acredito que você foi enganado, Gordon. *Slurrp* O Troll mentiu pra você a respeito de *Shiiir* quem ele realmente é.

- Do que ele está falando Troll? Isso é verdade?

- Ele se apresentou como Lealdade e Obstinação, mas seu nome na verdade é outro. Muito mais sombrio e *ssshhhiiiirrrrrr* perigoso.

- Calado. - O Troll falou com voz embargada.

- Você é uma mentira Troll. Andando por aí como se nada lhe importasse. *Sluurp* Quando na verdade você se importa. Você se importa muito. E isso lhe come por dentro *shh*.

- Eu disse "calado". - Uma pitada de raiva foi detectada por todos.

- Talvez você devesse se apresentar como insegurança, sabe? Talvez inveja *Shiir*. Vive por aí com lágrimas nos olhos porque não é bom o bastante. Porque não tem o bastante. *slurp*. A verdade é que você é a criatura mais patética desse lugar. Por que sua existência nega a si mesma *sshiiii*. Você se chama Fúria, mas de que adianta ser algo que você não pode demonstrar? De que adianta ser Força, se tudo que isso faz é te transformar num fraco? *sh*

- Fúria? - Gordon pareceu confuso.

- Eu disse... "calado". - Seus punhos cerraram e numa fração de segundo, ele se lançou contra Sadismo.

O primeiro soco, como Gordon se lembraria anos mais tarde, foi algo impressionante. O Troll voou os poucos metros que o separavam do alvo e lhe acertou um cruzado de direita no queixo que lançou Sadismo contra uma das pilastras e provocou uma onda de choque que derrubou os demais presentes, incluindo o Golem.

Cego de raiva, ele continuou avançando e socando o alvo com toda a força que tinha. Os músculos pareciam tentar romper a pele cada vez que o Troll os retesava para o próximo golpe. Seus olhos escorriam lágrimas, mas era impossível saber exatamente o que estava acontecendo com ele, raiva, alegria ou talvez a dor que o próprio corpo monstruoso provocava a cada golpe titânico.

Sadismo apenas recebia os golpes sem nenhuma condição de se defender ou desviar. Seu corpo lembrava um boneco de pano sendo lançado toda vez que o Troll lhe socava. A surra continuou por vários minutos, Gordon e os outros incapazes de fazer qualquer coisa.

Então, algo surgiu no horizonte.

De todas as direções, uma energia azul vinha em ondas na direção do combate. Quando as ondas finalmente quebraram sobre a cena, Gordon percebeu do que se tratava. Bilhares de fadas azuis, gritando, rindo, falando no seu idioma de faz de conta e voando enlouquecidamente ao redor de tudo e de todos.

Mesmo o Troll, no estado de fúria em que se encontrava, teve de parar pra observar o que estava acontecendo. Sadismo ficou caído num canto, próximo a Razão.

- Elas voltaram. - Gordon sorriu. E as fadas gritaram excitadas e vieram se sentar sobre seus ombros, gargalhando.

O Troll se afastou de Sadismo e foi para perto de Gordon.

- Perdão. Eu devia ter dito quem eu realmente era.

- Não creio que isso realmente importe, Troll.

- Ah, mas importa sim...*shiiiiir*

Sadismo estava em pé ao lado de Razão. Suas garras longas estavam cravadas no coração do anjo.

- Sabe, somente uma fúria tão intensa quanto a do Troll poderia gerar o efeito que eu queria *sluurp*. Finalmente libertada, essa fúria é capaz de sobrepujar qualquer poder da Razão *shiiiiir*.

Ele puxou e Razão urrou de dor, trombetas soaram, explosões, animais rugiram, naquela voz que era uma amálgama. O coração do anjo foi arrancado.

- Somente uma fúria tão intensa, poderia criar no coração da Razão, a arma que eu precisava pra destruir o Vórtex. *Shhhiiii*. - Sadismo fatiou o coração com as garras, caçando algo dentro dele. - Ah, aqui está *sh*. - Ergueu as garras, que seguravam delicadamente um pequenino ovo negro.

- O que você está fazendo? Não! - Moon Tyrant pareceu ser o único a entender.

Sadismo jogou o ovinho no chão. Ele se partiu e de dentro dele saiu uma pequenina serpente alada que rosnou como somente um filhote o faria. Mas então, num piscar de olhos, a serpente cresceu. E cresceu. E cresceu tanto que em segundos, tinham mais de 100 metros de comprimento, sua cabeça a vinte metros de altura. O monstro rugiu e disparou labaredas roxas pela boca com as asas imensas abertas num desafio a qualquer um que ousasse se opor ao seu poder.

- O que é aquilo? - Gordon perguntou.

- Loucura! *shiiirr*


A SEGUIR: O Inferno de Gordon, parte XII: A Serpente Alada.

Um comentário:

Eduardo Caranicolov disse...

Muito bom mey, embora eu não concorde que APENAS fúria gera loucura. Continue com os posts! Outro dia entrei aqui pra ler os contos dos cavaleiros do Apocalipse e o do humano congelado que acordou numa terra de baratas. Os dois são mto bons! O/

 
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