domingo, 20 de janeiro de 2008

Jack, Charlie, e o grande baile

(Bom, primeiramente, peço desculpa por quebrar completamente o ritmo do blog no último post, mas eu realmente precisava desabafar e foi o melhor jeito que eu encontrei na hora. O blog continua com os contos e crônicas usuais, que é o que eu gosto mais de escrever e aparentemente é o que tem agradado mais o pessoal.)


Era a grande noite. A grande chance pra todos. A noite em que nobres e plebeus eram iguais. A noite do baile do colegial.

Eu não estava particularmente empolgado, era só mais uma festa com o pessoal manjado da escola, só que sem álcool e com a supervisão de adultos. Resumindo, era um festa chata, mas por algum motivo, existia toda uma mística em torno daquela noite que fazia parecer que tudo poderia acontecer. Eu conhecia mais de uma pessoa que esperava pelo baile antes mesmo de saber exatamente o que era um baile.
Os caras da turma estavam entusiasmados. Charlie tinha comprado um terno novo e Kevin tinha convencido Heather, a garota mais gostosa da escola, a ir com ele. Tudo prometia uma noite inesquecível. De fato, eu jamais esqueci.

O baile já ia chegando ao final, o ponche já estava batizado, mas ninguém se mostrava bêbado demais. Os primeiros casais saíam discretamente e entravam nos carros procurando pelos melhores cantos escuros da cidade pra dar uns amassos. Kevin dançava uma baladinha lenta no meio da pista com Heather, e Bia, a garota que eu tinha levado ao baile, estava num canto agarrada com um jogador do time de luta-livre que eu não reconheci, por que eram todos muito parecidos.

Eu sai do salão e dei uma caminhada até o pátio, vi que o céu estava muito claro e estrelado, e a lua estava ligeiramente avermelhada, um daqueles lances de eclipse ou sei lá o que.
Quando me virei na direção da torre do relógio, vi um vulto grandalhão lá no alto, não tive dúvidas, era Charlie.

- Vai entrar numa enrascada se alguém te pegar aqui. - Eu disse me aproximando depois de finalmente subir a longa escada espiral por dentro da torre.

- Não me importo. - Charlie disse virando pra me olhar, ele estava sentado no parapeito com as pernas para fora da torre e cambaleou perigosamente, na mão esquerda um embrulho em papel pardo.

- Isso na sua mão é scotch? Você andou bebendo? - Perguntei com um semi-sorriso no rosto, Charlie raramente bebia, mas costumava exagerar quando o fazia.

- Eu só bebo bourbon Jack, achei que você já soubesse. - Ele respondeu me dando as costas.

Reparei que sobre o parapeito estavam os sapatos dele, e dentro de um dos sapatos vi o brilho dourado do relógio que ele ganhara do pai e dos óculos de grau, era estranho vê-lo sem os óculos, mas me pareceu um detalhe sem importância.

- A bia me largou no meio da segunda música. - Desabafei.

- Heather ainda vale alguma coisa, mas a Bia é uma tapada. - Ele disse com mais dureza do que eu esperava ouvir. - Não se preocupe, o karma toma conta dela.

Charlie era um cara muito alto e de ombros largos, ainda assim um sujeito simpático e de aparência inofensiva. Era um nerd de marca maior. Devorava livros no café da manhã, adorava filosofia, estudava tudo que podia sobre religião, embora não mostrasse seguir nada do que lia. Não pude deixar de sorrir quando ele deixou Bia a cargo do karma, era exatamente o estilo dele, por isso era meu amigo. Meu melhor amigo.

- Vamos embora daqui, esse baile já era. - Eu disse na esperança de voltar pra casa e descansar na minha cama.

- Pode ir sozinho, vou ficar aqui mais um pouco.

- Certo. Se cuida Charlie, te vejo amanhã.

Eu desci as escadas e deixei o Charlie lá. No estacionamento, vi Kevin e Heather saindo no carro dele, a noite deles ainda estava começando. A minha no entanto estava a 10 segundos de terminar.


BOOM!!

Me virei na direção do barulho assustado, parecia uma bomba, mas não tinha fogo. De repente escutei um grito de mulher e um alvoroço logo depois, estavam na torre do relógio. Corri de volta e logo percebi que algo estava errado.

Cercado por uma 4 pessoas completamente aturdidas, estava um corpo no chão, um corpo grandalhão, sem óculos e sem sapatos, e sem vida. Charlie tinha caído da torre.

A noite parecia não terminar nunca enquanto os policiais me faziam mais e mais perguntas, já que eu tinha sido o último a vê-lo com vida.
Um dos peritos encontrou um bilhete no bolso interno paletó:

A tout le monde
A tous mes amis
Je vous aime
Je dois partir

These are the last words
I'll ever speak
And they'll set me free

Charlie.

Era a letra de "A Tout Le Monde" do Megadeath. Estava escrito com a letra do Charlie e foi considerado um óbvio bilhete de suicídio. Charlie se suicidou. Eu nunca soube o porque. Ele era meu melhor amigo, devia estar gritando por ajuda há semanas com aquele jeitão retraído dele e eu nem percebi, concentrado demais no meu mundinho precioso de festas e garotas.

Dias depois a mãe de Charlie me ligou e disse que eu podia ir até a casa dela e pegar alguma coisa do Charlie como lembrança. Eu entrei no quarto dele, e vasculhei por algum diário, alguma pista do motivo pra ele ter feito aquilo, até liguei o computador e verifiquei o que ele andava fazendo na internet, mas tudo que eu via eram sites sobre retiros budistas, monastérios e coisas relacionadas ao budismo. Em cima da escrivaninha estava a única coisa que eu tirei daquele quarto. Um folheto falando sobre um retiro budista no japão.

Em um ano eu consegui a grana e logo estava de viagem marcada. Não ia pra faculdade, estava de malas prontas pra ir pro japão.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Magda Banks

Acabei de realizar um funeral. É verdade, não é mais uma crônica ou conto. Eu tive durante 4 anos um esquilo da mongólia. ELA morreu há 40 minutos. Eu a enterrei numa pracinha de frente com a minha casa. Ela já estava velhinha, e ontem antes de sair pra trabalhar eu reparei que ela estava fria, temi pelo pior, mas torci pra que fosse só um resfriado ou algo assim. Hoje eu cheguei e ela estava quietinha, não tinha nada da animação de sempre, peguei-a e percebi que ela estava muito fria, gelada quase. Comecei a tremer, sabia que a hora estava chegando, e ela aparentemente também.

Minha mão se aproximou e eu contei o problema, ela ficou perturbada, mas tentando me animar perguntou: "Você vai querer outro? A gente pode comprar um outro bichinho pra você." "Eu quero a Magda." eu respondi. Era verdade, eu só queria a Magda. Coloquei-a no sofá na esperança de que uma caminhada lhe fizesse bem. Ela pareceu mais e mais desorientada, as patinhas já não obedeciam e ela começou a tentar se jogar do sofá no chão.

Me desesperei e comecei a chorar, minha mãe tentava me acalmar, mas sem remédio. Ela finalmente caiu no chão se debatento, fiquei com medo de toca-la, percebi que ela estava morrendo ali naquela hora. Minhas mãos a protegiam de algum mal invisível, eu tentava criar coragem pra pega-la, mas não consegui. Ela parou, mas suas pernas ainda se moviam em agonia.
"MORRE!MORRE!" eu urrei desesperado, querendo que a dor dela acabasse, minha mãe ficou muito assustada e meu pai veio correndo ver o que tinha acontecido, ela já estava morta na altura em que ele chegou.

Minha mãe surgiu não sei de onde com um suco de maracujá, que eu bebi sem sentir o gosto só pra dar a impressão de que estava tudo bem. Fiquei olhando pra ela no chão, olhos abertos, sem vida. Deitei do lado dela e fiquei observando aquele corpinho peludo no chão.
Minha mãe estava em pé do meu lado, e parecia preocupada comigo, também chorava.

Resolvi me levantar e começar a preparar um caixãozinho improvisado. Ela tinha um tubo de papelão, tampei um dos lados com papel toalha e linha, coloquei um pouco da serragem do aquário e então coloquei aquela coisinha minúscula que ela era lá dentro, ainda chorando muito. Ela dorava semente de girassol e amendoim. Coloquei alguns com ela, e coloquei milho e trigo caso ela enjoasse dos outros, peguei a serragem do ninho dela, onde ela dormia e tampei o tubo, coloquei outra folha de papel toalha e amarrei com linha (tudo com ajuda da minha mãe, eu estava tremendo muito).

Fui até a pracinha e cavei com uma pá de pedreiro na terra úmida, matei minhocas e tatuís no processo, irritado com o fato de que logo eles estariam se alimentando da minha preciosa filhota. Eu NUNCA mato, NADA, só pra ficar claro o nível da minha perturbação. Antes de colocar o tubo na terra, escrevi com uma caneta azul:

Magda Banks
*2004 - 16/01/2008 †

"Mordia todo mundo,
menos eu."

Enterrei o tubo e enquanto isso a porra da música do "ciclo sem fim" do Rei Leão não saia da minha cabeça. Fiz uma prece por sua alma roedora e voltei pra casa. Quando entrei e vi o aquário vazio, comecei a chorar de novo. Então vim até aqui escrever, desabafar um pouco.

Magda meu amor, eu não esqueci da promessa. Um dia, quando tudo for possível, eu volto pra te buscar. Eu juro. Eu faço um juramento solene! Eu volto pra te buscar.

E agora me resta sorrir chorando enquanto lembro de todas as vezes que você me fez rir. E me resta me desesperar à lembrança de que você se foi pra sempre.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Jack e a noiva que não lhe pertencia, nem ao seu próximo

(Não posto a mais de uma mês, sim eu sei, não ando no melhor dos humores pra escrever, mas pretendo postar com mais frequência de agora em diante. Provavelmente poste alguma história antiga esquecida do meu flog, provavelmente "As Crônicas do Vortex" que foi meu maior "hit" na época, mas reescrita e melhorada , ou seja , uma versão 2.0, veremos, não me esperem pro jantar....)

Num barzinho ele bebia uísque sentado num banquinho ao balcão, estava sozinho. Ela observava de sua mase a um bom tempo, o cara era bonitão e não olhava pro relógio, sinal de não esperava ninguém. Resolveu arriscar e cruzou o bar gingando até o solitário, sentou-se no banquinho vizinho e sorriu.

- Oi. - Ela começou com a voz sensual.
- Oi. - Ele respondeu sem emoção.

Desconcertada ela chegou a pensar que ele fosse gay, ou talvez um daqueles caras tímidos demais pra continuar uma conversa. Estava rodando sozinha a noite toda e resolveu apostar todas as fichas naquele sujeito, seria mais ousada.

- Hum. - Ela colocou a mão de leve sobre a dele. - Não tem aliança.
- Até onde você possa ver não. - Ele respondeu sem dar atenção.
- E onde mais você poderia colocar uma aliança? - Ela riu.
- Em muitos lugares. - Ele olhou para a mão direita dela, uma aliança dourada no dedo anelar, era noiva. - Mas talvez o lugar mais importante seja a cabeça, pois se você não respeita a aliança, ela não passa de um anel.

Ele pagou, se levantou e saiu, deixando-a embaraçada e sozinha para trás.

sábado, 8 de dezembro de 2007

As putas da minha vida

Era uma noite quente, mas os ventiladores no teto faziam bem o seu trabalho. A música tocava bem alta, alguma porcaria black que estava na moda. A luz negra escondia parcialmente as feições de todos no ambiente, um salãozinho pequeno de no máximo 10x10 metros. No fundo um balcão longo onde 2 barmans atendiam à multidão furiosa de comandas de cartolina amarela agitadas no ar, a minha era apenas mais uma delas. Um barman finalmente me viu no canto do balcão, o mais afastado possível de todos, mais ainda assim me acotovelando com dois sujeitos bem vestidos que tinham pinta de empresários. Pedi a quarta das 5 cervejas que aquele pedaço de cartolina me garantia, e logo a latinha veio parar na minhão mão.
Bebi relaxado, um dos engravatados ao meu lado deu um gole num uísque e deixou no balcão, o outro havia pedido um drink que parecia ser alguma coisa com limão dentro, mas nem tocou no copo, sem mais nem menos os dois saíram andando atrás de uma loira que passou por nós. O barman atarefado tentava com dificuldade abrir espaço no balcão cheio de copos e latas vazias, veio na minha direção:
- O uísque é seu? - Confirmei com a cabeça. - E a caipiroska? - Fiz que sim novamente terminando minha cerveja e ele se afastou levando minha latinha vazia.
Acendi um cigarro e terminei o uísque com um só gole sem me importar se podia estar pegando herpes ou coisa pior daquele copo, uma dose de uísque não saia por menos de 20 pratas por ali, e eu estava disposto a ficar um pouco bêbado. Em seguida beberiquei a caipiroska no canudinho, estava fraca, mas cavalo dado não se olha os dentes.


No palco redondo minúsculo que ficava no centro do salãozinho, umas das garotas dançava sensual naquele poste metálico, entrelaçava as pernas e virava de ponta cabeça, era impressionante, era lindo. Me critiquem à vontade, mas para mim aquilo era uma visão divina, e mesmo ateu convicto, eu sempre conseguia ver deus nas coisas mais banais. Não o deus vingativo e temperamental da igreja, um deus maior e mais primitivo, um deus que não passava de uma sensação boa no estômago ao ver todas aquelas garotas semi-nuas circulando por ali. A dançarina da vez era Daisy, ou Michele, ou qualquer outra coisa, ela detonava naquele poste metálico, e quando tirava a calcinha, vinha aquela lufada de fumaça perfumada sabe-se lá de onde e encobria tudo, nos dando apenas uma pequena amostra do que poderíamos obter naquele paraíso carnal. Daisy, ou Michele, ou qualquer coisa, correu pra fora do palco e entrou numa portinha num canto, fim do show por enquanto.

Terminei outro cigarro e a caipiroska, acendi mais um malvadinho e pedi minha quinta cerveja, estava de costas pra tudo, apoiado com os cotovelos no balcão, pensando em algo que eu nem mesmo tinha certeza do que seria. Um par de mãos delicadas me tocou nos ombros, isso era comum num puteiro, ignorei e continuei bebendo. As mãozinhas eram insistentes e começaram a viajar para lugares mais dignos de atenção, suspirei meio impaciente e me virei pra ver quem era.
Não que eu me orgulhe, mas conhecia quase todas as putas daquele lugar pelo nome, nomes de guerra e nomes reais, frequentava o lugar há alguns anos e estava sempre me atualizando na vida profissional e pessoal das meninas, era amigo de algumas delas. Mas desde a primeira vez em que eu havia passado por aquela porta, uma garota em especial tinha me chamado a atenção, e embora eu pudesse simplesmente convida-la pra subir e pagar os 80 mangos pela foda, nunca tinha acontecido nada entre nós.

Ela era loira, claro são sempre loiras, e tinha os olhos muito grandes e castanhos, lindos. Um rostinho perfeito de nariz fino e boca charmosa. O corpo era algo obcenamente maravilhoso para os meus padrões, a mulher ideal, muita carne em cima, nem tanto atrás e pernas lindas, grossas e lindas.
- Criou coragem e veio falar comigo finalmente? - Eu sempre tive esse senso de humor horrível e deslocado, mesmo assim ela riu.
- Não, uma amiga quer falar com você. - Ela me olhou do jeito mais sacana que conseguiu e saiu rebolando dentro do seu espartilho vermelho. Fiquei puto da vida. Fui até onde ela havia indicado de longe, era uma das meninas, digo, uma das "minhas" meninas.


- Fala Bab's. - O nome de guerra era Bárbara, eu chamava de Bab's, ela tinha um filhinho que adorava batman.
- Hey Jaque. - Meu nome é Jack, por causa de algum personagem de filme que meu pai gostava, mas o pessoal me chamava de Jaque, só pra sacanear. - Falei com a gerente, e cobrei um favor dela. Te consegui um lance.
- Diga lá e eu vejo se me interesso.
- É o seguinte, todo mundo aqui sabe de você e da Loira. - Numa brincadeira sádica, todos os funcionários e as meninas haviam decidido não me dizer o nome da loira, apenas chamavam-na de "Loira". - A gerente te propõe o seguinte, você pode escolher, meia hora de graça com a Loira, ou duas horas de graça com as 3 meninas que você quiser, desde que não escolha a Loira entre as três.
Eu ri sinceramente.
- Bab's, Daisy e Rachel, vamos praquele quarto com a cama grande.


Bárbara era uma ruiva linda, Daisy era uma branquelinha magra e muito "habilidosa", Rachel era uma gordinha peituda e maluca, as 3 eram de longe as melhores transas da casa. Ainda acho que escolhi bem. Quando venceram as duas horas, estávamos os 4 na cama, devastados, as garotas encostaram as cabeças no meu peito e descançavamos um pouco. Pude ouvir Bab's dizer baixinho:
- Um, dois, três e... - As três gritaram em coro. - Feliz Aniversário Jack!
Eu tinha acabado de passar as 2 melhores horas da minha vida, suspirei e disse.
- Que se foda a loira, eu amo vocês garotas.

By Gordon Banks (08/12/2007)


Um pequeno PS: Os nomes usados no texto não estão aí com a intenção de ofender ninguém, usei nomes aleatórios para ilustrar as personagens.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Eu e os 10 Budas Cotidianos

Eu tinha trabalhado a noite toda, só tinha aquele dia de folga, trabalharia no dia seguinte, que era domingo por sinal...só havia dormido uma hora quando minha mãe bateu na janela.

-Tom, você tem certeza que não vai? Você tá dormindo? - Engraçada a ordem das perguntas.
-Não vou. Se estivesse de folga amanhã, até iria, mas quero descansar.
-Seu irmão volta ainda hoje, volte com ele!

Ela tentava me convencer a ir num churrasco de aniversário de casamento da minha tia, vamos chama-la de "A". Tia A me adorava e sempre me convidava pra ir até a casa dela, que era obscenamente longe de São Paulo, duas horas e meia de viagem. Eu não queria ir como deu pra perceber, mas minha mãe tinha enfiado na cabeça que eu devia ir, e não parecia disposta a desistir.

Acabei cedendo, me levantei, me troquei e sai de carro rumo a casa de tia A com meu irmão, meus pais iriam mais tarde levando uns primos meus de carona.

Fiquei em silêncio como de costume, nunca fui de falar muito, não acho necessário. As pessoas por outro lado tomam meu silêncio por timidez, arrogância ou burrice. Meu irmão tentou puxar papo algumas vezes, mas desistiu quando reparou que minhas respostas não passariam de monossílabos sussurrados. Seguimos viagem tranquilamente, com comentários esporádicos dele sobre algo que víamos na rua ou na estrada e um comentário meu, que normalmente encerrava o assunto.

1º Buda Cotidiano: O sujeito com chapéu de oncinha

O Trânsito em São Paulo é um saco, não importa o dia, e aquele sábado não era excessão. Estávamos parados numa fila imensa tentando alcançar a Anchieta, e olhando pro lado, no portão de uma casinha pequena, vi algo no mínimo "digno de nota". Um sujeito na casa dos 50 anos, de bermuda, sem camisa e naquele calor de 33º C usava um chapéu peludo, com estampa de oncinha. Parecia muito tranquilo fazendo um trabalho manual que eu ignoro o que era, algo com uma mangueira plástica e uma faca. Parei pensando naquilo, era uma imagem de bucolidade tão explícita que me comoveu de certo modo, mudando meu humor automaticamente de "Com sono e indiferente" para "Contemplativo e profundo". Passei a me sentir bem daquele momento em diante.

A viagem seguiu.

2º Buda Cotidiano: O cachorro atropelado

Cena comum na estrada, a certa altura da viagem, olhei pro acostamento oposto ao meu e vi com tristeza um irmão canino atropelado e morto. Na mesma hora fiz uma prece louvando Amida, o buda da Misericórdia e senti tristeza profunda por aquela criatura indefesa que provavelmente morreu sozinha e agonizante na beira daquela estrada. Refleti brevemente sobre a inconstância da vida e a inevitabilidade da morte, e então me conformei com o destino reservado ao quadrúpede fiel.

3º Buda Cotidiano: O cachorro andarilho

Já perto do nosso destino, vendo no horizonte montes verdes e bosques frescos, deparei-me com um cachorro comendo algo na beira da estrada, o que era eu não sei, estava numa sacola de plástico branca, provavelmente lixo. Pensei na sina do primeiro cachorro e desse segundo, quão diferentes e quão parecidas seriam? Estaria meu segundo irmão canino fadado ao mesmo destino do primeiro, e o primeiro, estivera também comendo dum lixo semelhante dias antes de sua morte? O homem ignora o sofrimento alheio de tantas formas que eu me desconcerto. Fiz uma prece silenciosa pela segunda vez à Amida pedindo pela segurança do cão que comia lixo.

4º Buda Cotidiano: As cruzes de madeira

Passamos da entrada que deveríamos pegar para chegar ao sítio de tia A e tivemos que avançar 3 quilómetros na estrada para dar a volta, numa curva, vi 3 cruzes de madeira, cada uma com um nome, dos quais não me lembro mais. Cada uma das cruzes representava uma pessoa que havia morrido naquele lugar. Fiz uma prece e tentei imaginar que tipo de pessoas seriam os desencarnados, numa tentativa vã de imortaliza-los por mais um instante, mas falhei, minha mente logo foi atraída para algo mais interessante. As cruzes no entanto permanecem lá, duras e frias, meditativas, representando os 3 mortos daquela curva, representando 3 pequenos budas de madeira.

5º Buda Cotidiano: Tio A

Tio A era marido de tia A. Viviam naquele sítio a um bom tempo, com uma filha pequena de uns 8 anos. Eu não estava em contato com a família nos últimos anos, por isso todos pareciam deformados e diferentes do que eu lembrava, as cores e cheiros também, as roupas, os semblantes. Tio A era o mais diferente, e ainda assim o mais igual. Busquei na memória e me lembrei dele há tempos atrás, cabelos castanhos e um bigodinho de escovinha que ele usou por anos. Agora, de cabelo grisalho e sem bigode, ainda tinha o mesmo ar divertido de antes. Contou histórias engraçadas durante o churrasco e as cervejas. Parecia de alguma forma um pilar no qual a família se apoiaria em breve. Guardei esse pensamento.

6º Buda Cotidiano: O caçador

Meu avô é um ancião de mais de 80 anos, alto e forte, como só eu consigo me lembrar. Era ele quem costumava reunir todos a sua volta e contar as histórias engraçadas, mas não agora. Perdeu minha avó há 2 anos e desde então tem dados sinais sutis de senilidade. Sinto-me triste por isso. Olhei para ele em determinada hora do churrasco, estava sozinho sentado numa cadeira confortável, cochilava tranquilo. Um buda de paz. Tive que fazer uma reverência invisível, tive que honra-lo, tive que respeita-lo, pois aquele caçador de pássaros era uma das únicas 6 razões para eu estar aqui, as outras 2 sendo meus pais e as outras 3 que já partiram, minhas avós e meu outro avô.

7º Buda Cotidiano: O bebê

Tio B, irmão de minha mãe, teve sua primeira filha recentemente, uma menininha pequena de olhos grandes e olhar inteligente. A garotinha fitou-me longamente e alguém a interrompeu apontando para os cães e dizendo.
-Olha o Au-Au!
Eu esperei que ela me olhasse de volta e disse no tom mais explicativo que consegui.
-Não é Au-Au, é cachorro. Parece mais fácil dizer Au-Au, mas é uma armadilha, vão te repreender daqui uns anos se você disser Au-Au, o certo é cachorro.
Ela não aguentou o peso da realidade e ameaçou chorar, incrível, não tinha chorado uma única vez o dia todo. Todo mundo ressaltava o fato dela ser um bebê tão quietinho, aí eu troco umas palavras com ela e a menina chora. Uma pequena buda que não vai gostar de mudanças no futuro, foi o que eu vi, mas ainda assim, um bebê tão bonzinho, só pode ser um buda.

8º e 9º Budas Cotidianos: Primas C e D

São irmãs. Ambas bonitas, ambas inteligentes e ambas religiosas. Ah sim, e ambas solteiras, perto dos 30. A irmã mais nova das duas casou-se há 1 mês, e por alguma razão, talvez por não vê-las a muito tempo eu senti o semblante das duas, no mínimo mais rígido do que antes. C segurava o bebê com tamanho cuidado que poderia jurar que fosse seu, e além disso, cantava com uma voz triste e cheia de significados. D por outro lado, era quase invisível, o tempo todo ao lado da mãe, sentada, comportada, sem dizer uma palavra, com uma cara desanimada e linda. Pensei nelas com carinho, gostava de minhas primas. Pensei nelas como dois budas de esperança e comedimento, dois budas de paciência e devoção, enfim, pensei nelas como duas pessoas que terão o que querem, mas talvez, não quem queiram.

10º Buda Cotidiano: Meu irmão

Quando saímos de lá, já estava escuro e tínhamos bebidos algumas cervejas, meu irmão umas 5, eu umas 15, mas isso no decorrer do dia todo, o que não nos colocava em grande risco no caminho de volta. Claro que com 15 cervejas na cabeça, até eu começo a falar e logo no começo do caminho começamos a conversar, falamos bastante e nos calamos uma parte do caminho, depois já perto de casa, começamos a falar de novo. Pensei em como somos parecidos, de formas que eu não gostaria que fossemos e como somos diferentes, de maneiras que eu até gosto. Ele me contou uma ou outra coisa que não vou escrever aqui, mas deu a entender que ele é só um cara como todos os outros, inclusive eu. Um buda de simplicidade, um buda de sonhos despedaçados, um buda de profundidade.

Somos todos budas, aprendi isso e nunca mais esqueci, cada um a sua maneira, independente de religião ou o que quer que seja, todos temos nossa parcela de sentimentos profundos e complexos que jamais vamos conseguir explicar pra algumas pessoas, e que outras vão entender apenas nos olhando nos olhos. Todos temos a centelha de uma alma incendiária dentro de nós, essa alma mística que nos leva a lugares inesperados, até mesmo numa viagem de um dia como essa minha. E pensar que eu viajei além do interior Paulista naquele sábado, fui até o infinito e voltei, tudo por causa de um sujeito com chapéu de oncinha...

By Gordon Banks (26/11/2007)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Olhos verdes, olhos verdes...

Ele a segurou pela cintura e olhou no fundo dos seus grandes olhos verdes, e foi aí que o devaneio começou...

- Você ficou linda no vestido. - Ele disse encabulado, mas confiante.
- Nós não nos falamos há 3 anos. - Ela respondeu seca.
- Não sei porque me afastei.
Ela olhou ao redor desconfortável, ninguém podia ouvir aquela conversa.Disse.
- Você foi embora porque nós não podíamos ficar juntos.
- Deve ter sido isso, ou talvez porque eu não acredite mais nos contos de fadas...
- Triste ouvir logo você dizer isso.
Ele olhou ao redor, os rostos paralizados, os sorrisos eternos, como fotografias, ninguém tinha idéia do que se passava...
- Você vai virar personagem num de meus contos...uma rainha...rainha da fadas!
- Como vou saber que sou eu?
- Vou usar seu nome.
- As pessoas não são burras, saberão que sou eu.
- Não me importo. Não mais. Tarde demais, acho...
Ela se emocionou, e lágrimas brotaram de seus olhos imensos e expressivos.
- Eu te... - Ela o interrompeu, colocando sua mão sobre a boca e inibindo as palavras.
- Em outra vida. - Ela disse suave.
- Em outras. - Ele assentiu.

E acabou-se o devaneio, tudo passou a se mover naturalmente de novo, as pessoas, os risos, tudo...e ela estava lá ainda, parada, linda, deslumbrante, olhando pra ele.
- Fiquei muito feliz de você ter vindo! - Ela disse.
Ele tentou balbuciar algo, não encontrou as palavras.
- Felicidades. - Ele disse finalmente, com um sorriso triste no rosto. E saiu da fila, para que as outras pessoas pudessem cumprimentar os noivos.

Jurou pra si mesmo que nunca ia falar sobre isso com ninguém, que nunca escreveria nada a respeito, mas não pode se conter...era difícil gritar com a boca fechada.

"Você foi a primeira a me beijar,
foi a primeira a me querer,
foi a primeira a me dizer "eu te amo",
foi a primeira a me deixar."

Eu vou sempre procurar por eles...olhos verdes, olhos verdes...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

"Everybody want to SAVE the world"

Fato: Todos querem salvar o mundo. Mesmo os que aparentemente não querem, ou não se importam. Ou que por assim dizer, querem "destruir" o mundo. O ditador. O político. O militar. O ativista. O médico. O poeta. TODOS.
Claro que cada um tem seu jeitinho todo especial de tantar fazer isso, enquanto o ditador tenta "livrar" a população da pressão e responsabilidade de tomar grandes decisões que afetam suas vidas, o médico salva vidas. Enquanto o político tenta mudar o mundo atravéz de leis, tratados e diplomacia, o ativista tenta mudar o mundo na marra, colocando a mão na massa. O militar segue as regras, o poeta quebra as regras.
No final das contas é claro, nada disso adianta.
Estamos girando sem controle no espaço, vindo do nada e rumando para lugar nenhum, e isso assusta as pessoas. Tentar ser o melhor, dar o melhor é a reação natural dos humanos, eles têem que controlar tudo, mas não controlam seus próprios destinos. Bom, então vamos sentar no chão e esperar a morte chegar, NADA pode ser feito? Não que essa possibilidade nunca tenha me passado pela cabeça, seria uma boa desistir de tudo e sentar no chão esperando pra ver onde isso vai dar, mas também seria contra a natureza humana. O humano evoluiu do macaco, isso é um fato, se você é burro ou crente demais pra duvidar, é um problema seu. Macacos são animais "familiares", eles não gostam de viver sozinhos, e herdamos isso dos nossos amiguinhos comedores de banana, simplesmente não SUPORTAMOS a solidão. E o preço que pagamos por uma vida cheia de gente a nossa volta chama-se SOCIEDADE. Claro que a sociedade é uma coisa boa, se você for um trabalhador, tiver uma religião, se portar como esperado por todos. Mas desvie de uma só crença da sociedade e você será um "vagabundo", um "rebelde", um "maníaco".
OUTRO fato é: Embora existam os maníacos, os rebeldes e vagabundos por aí, cada um querendo salvar o mundo do seu jeito, mesmo os desajustados não tem coragem o bastante de se erguer contra as BABAQUICES que a sociedade cria. Erguem estandartes vermelho-sangue com palavras de impacto tipo, SOLIDÃO, INCOMPREENSÃO, ELITISMO, mas muitas vezes nem eles se dão conta de que fazem parte da mesma sociedade que repudiam. Uns deixam de beber coca-cola e ir ao McDonald's, GRANDE COISA, você não está fazendo nada demais companheiro, sendo que você ainda tem espaço na sua mesa pro Tang e pro Arroz industrializado que nos vendem. Uns passam a ler poetas obscuros e assistir filmes "cult" sem se dar conta que a madeira continua a ser retirada das florestas sem controle pra fazer papel e mesmo os filmes "B" ajudam a movimentar a grande máquina bilionária do cinema. Mas nada disso me irrita, de verdade, se você quer se privar da melhor batatinha frita que existe (e de uma angioplastia num futuro próximo) e ler livros de caras tipo "Dostoiévski" (sem comentários sobre sua obra-literária), vai em frente, não coma, leia, não beba, veja, você só está expressando sua individualidade da mesma forma que mais alguns milhões de jovens por aí, bom trabalho. Mas pelo amor de tudo que é mais sagrado pra você, NÃO SE ACHE MELHOR QUE NINGUÉM POR CAUSA DISSO!
A parte irritante é essa, gente que acha que está salvando o mundo SOZINHA e se considera alguma espécie de ELITE por causa disso. Repete comigo, SOLIDÃO NÃO EXISTE, a não ser que você vá morar numa montanha sozinho e cultive seu próprio alimento e não dependa de mais ninguém NUNCA mais, aí talvez você descubra o que é solidão um pouco antes de perder o juízo, por que como já vimos, humanos não suportam solidão, mas caso contrário, estamos todos amarrados uns aos outros, até o final.
Enquanto esperamos o fim chegar, alguém pode coçar minhas costas?
 
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