quinta-feira, 17 de abril de 2008

A Nightmare on Sesame Street

A cena do crime era idêntica às anteriores.

O corpo estava no meio do quarto, a barriga aberta, as tripas espalhadas pelo tapete, mastigadas em vários pontos, o resto do corpo também estava mordido em vários locais, faltavam pedaços de carne. O legista confirmou, a garota tinha levado as mordidas ainda viva e depois foi estripada. Na parede do quarto, escrito com sangue a mesma mensagem dos 6 assassinatos anteriores:


"Nhac, Nhac, Nhac! I'm the Cookie Monster!"


Hilaff caminhou pela cena com cuidado pra não tirar nada do lugar, tapava a boca e o nariz com um lenço e observava o corpo e o interior do cadáver.
- Parece que está faltando alguma coisa aqui.
- Ele levou o estômago. - O legista se virou pra ele.
- Eu sei, como fez com todos os outros, mas parece que tem muito espaço vago aqui.
O legista revirava uma pequena pilha de roupas aos pés da cama.
- Ele tirou os ovários e o fígado também, acabei de encontrar. - Ele se levantou e abandonou o montinho de roupas e seu conteúdo macabro. - Preciso bater umas fotos disso.

O detetive continuou vagando a esmo pelo quarto, ainda cobrindo o rosto com o lenço, o cheiro no ar era insuportável, a garota estava ali há pelo menos 4 dias. A polícia já tinha uma boa idéia de quem era o serial killer, digitais parciais em 4 dos 6 corpos apontavam um suspeito em comum, e Hilaff estava quase certo de que a sétima vítima teria as mesmas digitais pelo corpo.

O problema é que o sujeito era um pouco mais do que um fastasma, nascera na periferia de Tirana e desde cedo tinha estado em instituições criminais para jovens e mais tarde instituições psiquiátricas. O cara era maníaco homicida e esquizofrênico, tinha delírios e vivia num mundo a parte da realidade, estava internado num manicômio público a mando da justiça, mas fugiu sabe-se lá como. Não tinha endereço fixo na sua ficha, sem parentes, sem conhecidos.

Hilaff saiu do quarto e foi até a entrada da casa, acendeu um cigarro e olhou pro céu, noite de lua cheia. O rádio de um dos carros cortou bruscamente o silêncio da noite.

"Atenção todas as unidades! Invasão de domicílio na Ceauccesco St. n 4! Testemunhas descreveram o invasor como possivelmente sendo o "Cookie Monster". Repetindo..."

O detetive jogou o cigarro no ar e saiu correndo na direção da viatura, entrou pelo lado do passageiro, sua parceira estava dando a partida no carro.

- Acelera essa bosta Marly! É o fodido do Cookie Monster! Acelera!

Ela respondeu afundando o pé no acelerador com toda a força, o ford roncou alto e avançou muitos metros pela pista, eles estavam a caminho.

Chegaram 7 minutos depois, nenhuma outra viatura ainda tinha chegado, mas podiam ouvir ao longe as sirenes.

- Eu vou entrar Marly, fique aqui fora.
- Nem vem Hillaf, você quer toda a glória só pra você? Além do mais, pelo que sabemos, esse cara é imenso, é melhor entrarmos os dois.
- Ai, ai...tá legal, tá legal, vamos logo...

Sacaram as armas e entraram na casa, era um sobrado bonito com uma pequena varanda na frente. Ao abrir a porta, o hall estava escuro, mais aos poucos seus olhos foram se acostumando com a escuridão, viram uma pessoa caída no chão. Marly sacou sua lanterna e ascendeu, mas desejou não tê-lo feito.
Um homem na casa dos 40, virado de cara pro chão, seu flanco esquerdo havia sido arrombado à dentadas e todo o interior daquele lado do corpo se espalhava pelo chão, uma trilha de sangue levava até a parede e a mensagem: NHAC!

Marly fez um sinal da cruz, Hilaff ignorou e seguiu pulando o corpo na direção dos fundos da casa. Banheiro limpo. Sala de Estar limpa. Sala de Janter limpa. Faltava a cozinha que tinha uma cortina de contas azuis em lugar de porta. Passaram por ela tensos, apontando a arma para cada canto escuro que havia, acharam a dona da casa atrás do balcão. Seu rosto tinha uma expressão quase cômica de espanto e dor. O assassino havia arrancado seu coração do peito. No balcão: NHAC!

- Como esse filho da puta faz isso? - Marly quis saber indignada.

Hillaf não respondeu, seguiu de volta pro hall onde estavam as escadas pro andar superior. Marly o seguia grudada em seus calcanhares.

O quarto do casal e o banheiro estavam limpos, era as duas primeiras portas, haviam mais duas.

- Me cobre Marly. - Hilaff seguiu até uma porta azul-bebê e deu um pontapé.

Era um quarto de menino. As bolas, carrinhos e o ferrorama mostravam isso claramente. Hilaff logo viu sobre a cama o corpo do garoto, estripado, não devia ter mais do que 13 anos. Na parede: NHAC!

Marly e Hilaff se entreolharam e depois fitaram a porta pink do outro lado do corredor. Acenaram com a cabeça e se dirigiram pra lá, as armas em punho. Marly girou a maçaneta com força e empurrou a porta, Hilaff entrou.

A potência daquela cena era impressionante, e Hilaff anos mais tarde em suas seções de terapia ainda se sentiria incomodado em falar dela. O quarto estava escuro como todo o resto da casa, mas a luz da lua cheia entrava direto pela janela daquele quarto, deixando tudo fantasmagóricamente azulado. Diretamente na direção oposta da porta, sentado contra a parede estava um homem imenso, não devia ter menos do que 2 metros de altura, e era gordo, mas não gordo como os maridos ficam depois de se casar, era obeso, era mórbido, devia pesar mais de 200 quilos!
Ele estava coberto de sangue, a boca e as mãos principalmente. Entre seus braços roliços e suas mãos grandes de dedos rombudos e unhas negras de sujeira, ele segurava o que parecia ser uma boneca sem cabeça, mas os detetives sabiam infelizmente que aquilo não era uma boneca, era uma criança.
Examinaram o quarto com os olhos rapidamente, todas as prateleiras, bonecas, bichos de pelúcia, caixinhas de música, roupinhas, a cama cor-de-rosa da Barbie, tudo coberto de sangue. E no canto, perto da penteadeira, aquele calombo hediondo de longos cabelos castanhos. A cabeça da garotinha. O monstro havia arrancado sua pequena cabeça do corpo à dentadas o legista descobriria mais tarde.

- PARADO! - Hilaff e Marly disseram ao mesmo tempo.

Monster largou o corpo da garotinha no chão, sua bocarra assassina se alargou e formou um sorriso diabólico e cheio de dentes vermelhos. Em sua cabeça ele se lembrava das surras que levava do pai enquanto passava Vila Sésamo na Tv educativa, apanhava sempre sem motivo, mas depois da surra continuava vendo o programa e se distraía, adorava o Come-Come, anos mais tarde descobriu que na América de onde o programa veio ele era chamado de Cookie Monster. Aí se lembrou de Pips, seu cachorro que o pai matou achando que era uma raposa invadindo o galinheiro. E depois de Yorda, a garota que morava na casa ao lado e que tinha lhe dado seu primeiro beijo. Ele havia comido Pips sem ninguém ver, quando matou o pai com 17 ele também o devorou e Yorda teve o mesmo destino quando terminou seu namoro com ele. Eles eram seus biscoitos, e ele adorava biscoitos, afinal, ele era o Cookie Monster.

- I love cookies!Nhac, Nhac, Nhac, Nhac, Nhac, Nhac! - Monster se ergueu numa velocidade e agilidade surpreendentes para um homem do seu tamanho. Avançou contra os detetives que não tiveram escolha, abriram fogo.

Morrendo no chão do quarto, baleado mais de 17 vezes até que parasse, Yaus Keletovich ergueu suas mãos e admirado percebeu que a luz da lua que entrava pela janela deixava sua pele azulada, igual a de seu personagem favorito.

- I am the Cookie Mons....- E se foi.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O homem que não sabia falar (Ou "O Mímico")

Ele não sabia falar, mas dizia várias coisas.

Andava por aí tímido, cabisbaixo.

Uma garota no ônibus sorriu pra ele.

Ele pegou o trem.

Uma garota de muletas no trem sorriu pra ele.

Ele desceu do trem pra pegar o metrô.

Uma garota baixinha sorriu pra ele.

Ele chegou no trabalho.

As garotas no trabalho sorriam pra ele.

Hora de voltar pra casa. Pegou o metrô e ganhou mais alguns sorrisos. Entram 3 mímicos no vagão e fazem seu número, ele sorri pros mímicos.

"Imagina a quantidade de sexo que eu estaria fazendo se soubesse falar." - Ele pensa consigo mesmo. "Talvez eu deva virar mímico."

sexta-feira, 21 de março de 2008

Escrevendo por culpa

Era um daqueles dias em que o ar está parado, as pessoas andam silenciosas, como se seus passos não fizessem barulho. Era feriado.

Aquele vazio vinha me devorando há alguns meses, eu achei que havia superado o que quer que fosse, mas aparentemente ainda estava contaminado com aquela incapacidade de sentir qualquer coisa.

O tempo parecia parado, ainda assim os dias corriam como corcéis selvagens, livres e caóticos.

Eu tinha visto duas pessoas morrerem no trabalho em menos de uma semana. Aquilo tentava me dizer algo, mas eu não queria pensar em nada.

Aí vi a Doutora, jovem, alta, cabelos negros, quadris largos. Ela estava dando a notícia pra família e eu por um instante pensei que aquele devia ser o pior trabalho do mundo. Um dos familiares começou a chorar.

Eu tenho esse direito? De me sentir tão mal? Acho que não...nenhum de nós tem...cancelamos o direito uns dos outros de nos sentirmos péssimos, porque sempre existe alguém em situação mais desesperadora.

Ai me passou um monte de coisa pela cabeça, e no meio do turbilhão lembrei de uma cena engraçada.

Um menino de 14, 15 anos andava de bicicleta, perdeu o equilíbrio e levou um tombo feio no asfalto. Um negrão careca, amigo meu, estava por perto e alertou: Cuidado pra não cair hein! O garoto possesso com a brincadeira e o tombo lançou: Vai tomar no seu cú!

Era simples, bobo, cotidiano, mas eu comecei a rir, me senti feliz pela primeira vez em meses.

De repente, aquele gosto amargo já não estava mais lá.

A vida era boa.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Planeta dos Macacos, mas não por muito tempo

O garoto acordou assustado, olhou ao redor procurando quem quer que fosse, mas não achou ninguém. O laboratório era imenso e as sombras se acumulavam nos cantos mais distandes, prendendo-o num cubo mal-iluminado cercado de grossas paredes sombrias. A câmara criogênica estava desligada e a cúpula de vidro que a selava estava erguida, o jovem não teve dúvidas, pulou para fora.

Estava nu, seus pés descalços pisavam num frio chão de metal, mas a sensibilidade ainda lutava para voltar às extremidades o que o poupava do frio que fazia ali.

Ele caminhou pela escuridão adentro sem medo, tateava pelas paredes com dificuldade e entrava em corredores e portas sem saber ao certo pra onde estava indo, estava muito confuso. Ouviu passos ao longe, seguiu na direção do som.

No final de um longo corredor ficava um salão enorme e iluminado, nele cerca de 10 homens imensos, com roupas pesadas de couro negro e capacetes de vidro negro andavam de um lado pro outro aparentemente impressionados com tudo que viam nas paredes, quadros, tapeçarias, cada vaso era uma relíquia e eles não pisavam nos tapetes com medo de que desmanchassem sob o peso de seus pés enormes. Para o menino passou despercebido o fato de que cada um daqueles homens carregava um fuzil e que todos eles tinham 4 braços.


Ele saiu do corredor caminhando lentamente, estava ainda muito fraco. Alguns dos homens se voltaram para ele e logo começou uma gritaria confusa numa língua que o menino jamais ouvira. Alguns dos homens apontavam os fuzis pra ele, enquanto outros tentavam impedi-los de atirar e outros dois ao fundo gritavam na direção de uma outra sala, de onde veio um outro gigante, esse vestia-se da mesma maneira, mas sua vestimenta era completamente vermelha, parecia ser o líder.

O gigante escarlate se aproximou e ajoelhou-se muito próximo ao menino, começou a falar muito devagar naquela língua estranha, como se o menino pudesse por mágica aprender aquele idioma caso pronunciado muito lentamente, mas isso não ajudou obviamente.

- Não entendo. - O menino disse no mais claro japonês que conseguiu.

Uma comoção entre os homens demonstrou que eles procuravam outro membro da equipe, logo entrou pela porta um novo gigante, esse vestia uma roupa branca, lembrou ao garoto um gordo boneco de neve.

- Japonês? Japonês fala você? - O homem de branco perguntou com um sotaque carregadíssimo.

- Sim. - Respondeu o menino confuso. - Quem são vocês?

- Nós equipe de arqueologia de Rochia.

- Rochia?

- Rochia grande cidade. Nós de Rochia. Você de onde?

- Eu nasci em Kyoto, mas fui criado em Akita. - A resposta veio tão facilmente ao menino que ele mal se deu conta de que de repente já se lembrava de quem era e de quase todo o resto. - Me chamo Iori.

O gigante de branco ia traduzindo tudo para o gigante de vermelho que apenas balançava a cabeça e fazia curtos comentários.

- Nós Rochia. Nós aqui pesquisando e encontrar você. Você muito raro!

- Eu sou muito raro? Não entendo.

- Humano muito raro, humano não mais.

Iori ficou em silêncio por um minuto, pensava no que estava ouvindo e mais memórias pareciam voltar de súbito a sua cabeça. O calor, as geleiras derretendo, os tornados, os terremotos, as enchentes, as pessoas morrendo, ele sendo congelado pelos pais para ser salvo no futuro.


- Não existem mais humanos? - Ele perguntou incrédulo.

- Humano não mais há muito tempo, humano lenda, muito Rochia não acredita em humano.

- Mas então...o que vocês são?

- Nós Rochia.

- Vocês vivem em Rochia e são Rochia?

- Sim, veja.

Ao mesmo tempo, todos os homens retiraram seus capacetes, o garoto abafou um grito de horror quando viu seus rostos. Cabeças insetóides de olhos redondos e negros, bocas multifacetadas e deslocáveis com tenazes dos lados, longas antenas na parte superior, eram imensas baratas humanas.

"Rochia...roach...barata em inglês.", Iori pensou..."Os humanos finalmente conseguiram, extinguiram a espécie mais perigosa do planeta, eles mesmos."

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Caverna Interior

Caminhei pela noite adentro, sozinho. Encontrei companheiros no meio do caminho.

Caminhamos pela noite adentro, sozinhos. Encontramos resistência.

Resistimos noite a dentro, sozinhos. Encontramos liberdade.

Corremos livres pela noite, sozinhos. Encontramos uma garota gordinha de 15 anos e olhos verde-folha.

- Você pode sair e conquistar o mundo, mas seus amigos ficam. - Ela disse com uma risadinha típica de garotas de 15 anos.

- Eu vou. - Respondo.

Saio da noite e finalmente enxergo a luz do sol depois de longos anos, minha pele pálida agradece quando recebe novamente os revigorantes raios de sol. Caminho por uma floresta e encontro uma imensa caverna, estou só.

Da entrada da caverna sai uma corrente grossa e enferrujada, curioso eu a seguro e puxo, seja lá o que estiver na outra ponta, vem deixando a caverna sem resistência.

Então eu finalmente vejo, preso pelo pescoço, um gigante. Mas o gigante sou eu.

O "euzão" está vestido de centurião romano, com um elmo dourado, um escudo no braço esquerdo, uma lança na mão direita e uma espada na cintura. Ele parece manso, mas poderoso.

Não tenho dúvidas quanto ao que fazer, quebro a corrente e liberto o gigante.

Somos um e vamos conquistar o mundo, sozinhos. Ou sozinho.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Modern Caveman

A caçada havia começado 5 dias antes, no coração mais profundo daquelas selvas úmidas. Os 4 homens seguiram sua presa incansáveis até uma vasta planície pedregosa. Thog, Gog, Brak e Taruk eram seus nomes, grandes guerreiros de sua tribo, o guerreiro mais forte, o corredor mais rápido, o pensador mais sábio e o rastreador mais implacável respectivamente.

Taruk e Brak investigavam cuidadosamente os rastros frescos de sua presa numa pequena poça de lama.

- Passou por aqui há 2 dias, a lama está quase seca. - Taruk estava de pé segurando uma longa lança na mão esquerda, era o mais alto dos quatro e vestia pouco, apenas uma tanga de peles padrão da época, uma gravata púrpura e um rolex de ouro no pulso direito, estava quebrado e não marcava as horas.

- Temos de apertar o passo Taruk. - Brak deixou a poça de lama após examina-la. - Ou vamos perdê-la. - Os olhos de Brak eram verde-vivo, o direito coberto por um monóculo. Ele alisou o cabo de sua faca na cintura com uma mão e com a outra tirou sua cartola preta e coçou a cabeça.

- Vocês dois, vamos indo! - Taruk gritou os outros dois companheiros.

Thog e Gog reuniram-se aos dois rapidamente. Thog era um homenzarrão imenso e de olhos pequeninos e estúpidos, não vestia nada além de um terno cinza muito surrado e carregava uma clava de madeira enorme, que um dia deveria ter sido toda uma árvore. Gog era o oposto, muito pequenino e magro, poderia ser tomado por uma criança, carregava um machado de pedra e vestia um par de tênis de corrida e um capacete de piloto com os óculos protetores abaixados o tempo todo.

Os 4 homens-das-cavernas seguiram uma trilha demarcada na planície, agora com um passo muito acelerado, quase corriam. Gog era visivelmente o mais rápido e parava muitas vezes para esperar o restante dos companheiros, era seguido por Taruk e Brak, Thog fechando a fila muitos metros de distância atrás.

A noite caiu e Taruk e Brak comemoravam ter ganho uma boa distância naquele dia, a besta deveria ser encontrada na manhã seguinte quase com certeza. Sentaram-se no chão e sentiam fome e frio, Brak acendeu uma fogueira já que era o único a conhecer os segredos do fogo. Os 4 amontoaram-se ao redor da fogueira segurando os joelhos e tentando se aquecer um pouco.

Um barulho na mata.

- Sonhadores. - Gog segurou o cabo do machado com força e levantou-se.

- Droga. - Thog acompanhou o amigo e levantou-se com sua imensa clava bem firme sobre os ombros.

- O GPS do Grande Chefe tinha mesmo mostrado uma concentração de sonhadores nessa área, eu esperava passar por aqui desapercebido. - Brak disse amargo.

Taruk imitou os companheiros e levantou-se, pronto para qualquer coisa com sua lança em punho. O ar parecia pesado e uma tensão empesteava a pequena clareira ao redor da fogueira. Minutos depois, nada tinha acontecido e eles relaxaram um pouco, uma hora depois sentara-mse ao redor da fogueira novamente, ainda atentos aos sons da floresta, mas nada aconteceu, de qualquer forma, nenhum deles dormiu aquela noite.

Na manhã seguinte partiram cedo e logo estavam no rastro da presa, era um animal grande pelo que parecia e deixava rastros por todos os lados, grandes fitas de papel crepom colorido.

Gog era o batedor e corria na frente pra verificar um penhasco a frente, os outros três descansavam sentados em pedras.

- Às vezes me pergunto o que estamos fazendo. - Taruk disse para ninguém em particular. - Qual o sentido em tudo isso?

- A tribo precisa de nós Taruk, e isso é tudo. - Brak concluiu.

- Está lá. - Gog tinha chegado sem ninguém percebê-lo, tinha um sorriso no rosto. - A Besta Arco-Íris está lá embaixo na planície.

Todos correram para a ponta do penhasco e assim que chegaram puderam vê-la. Era um animal enorme, uma anta com o tamanho de dois elefantes. Movia-se lentamente e tranquila, seu corpo era multi-colorido e parecia feito de muitos pedaços de papel crepom colados uns aos outros. Ela não parecia ter percebido os caçadores.

- Vamos caçar. - Taruk convidou.

Os 4 desceram pela encosta do penhasco com facilidade e seguiram abaixado e contra o vento até posicionarem-se logo atrás da besta. Thog foi o primeiro a atacar, sua clava monstruosa atingiu o flanco do animal com uma força descomunal e a parte traseira da fera tombou. Os outros correram pelos lados da fera, Brak e Gog desferindo vários golpes com suas lâminas e Taruk foi na direção da cabeça e com sua lança furou os olhos da criatura que urrava de dor e pânico. A fera ainda tentou reagir e acertou uma pescoçada em Brak que caiu estirado no chão, sua cartola e seu monóculo jogados longe, mas ele logo se recuperou. A Besta Arco-Íris estava acabada.

Taruk tirou um grande pedaço de tecido branco de uma maleta nas suas costas e entregou-a a Thog. O gigante vendou os olhos com o pano e alcançou seu tacape no chão. A essa altura, os outros 3 riam e começaram a rodar Thog que perdeu completamente o senso de direção, mas a fera ainda gemia baixinho e guiou seus ouvidos. Um único golpe de Thog foi o bastante.

A cebeça da fera voou longe, expondo o interior de seu corpo, um amontoado de pequenos pedaços de papel verde, notas de 20 e 50. Os 4 guerreiros destruíram complatamente a carcaça da besta e encheram suas valises com a recompena de sua caçada, teriam muito para levar de volta pra tribo.

- Eu nem acredito, matamos Piñata, a Besta Arco-Íris. - Um deles disse.


Por Gordon Banks (04/02/2008)

domingo, 20 de janeiro de 2008

Jack, Charlie, e o grande baile

(Bom, primeiramente, peço desculpa por quebrar completamente o ritmo do blog no último post, mas eu realmente precisava desabafar e foi o melhor jeito que eu encontrei na hora. O blog continua com os contos e crônicas usuais, que é o que eu gosto mais de escrever e aparentemente é o que tem agradado mais o pessoal.)


Era a grande noite. A grande chance pra todos. A noite em que nobres e plebeus eram iguais. A noite do baile do colegial.

Eu não estava particularmente empolgado, era só mais uma festa com o pessoal manjado da escola, só que sem álcool e com a supervisão de adultos. Resumindo, era um festa chata, mas por algum motivo, existia toda uma mística em torno daquela noite que fazia parecer que tudo poderia acontecer. Eu conhecia mais de uma pessoa que esperava pelo baile antes mesmo de saber exatamente o que era um baile.
Os caras da turma estavam entusiasmados. Charlie tinha comprado um terno novo e Kevin tinha convencido Heather, a garota mais gostosa da escola, a ir com ele. Tudo prometia uma noite inesquecível. De fato, eu jamais esqueci.

O baile já ia chegando ao final, o ponche já estava batizado, mas ninguém se mostrava bêbado demais. Os primeiros casais saíam discretamente e entravam nos carros procurando pelos melhores cantos escuros da cidade pra dar uns amassos. Kevin dançava uma baladinha lenta no meio da pista com Heather, e Bia, a garota que eu tinha levado ao baile, estava num canto agarrada com um jogador do time de luta-livre que eu não reconheci, por que eram todos muito parecidos.

Eu sai do salão e dei uma caminhada até o pátio, vi que o céu estava muito claro e estrelado, e a lua estava ligeiramente avermelhada, um daqueles lances de eclipse ou sei lá o que.
Quando me virei na direção da torre do relógio, vi um vulto grandalhão lá no alto, não tive dúvidas, era Charlie.

- Vai entrar numa enrascada se alguém te pegar aqui. - Eu disse me aproximando depois de finalmente subir a longa escada espiral por dentro da torre.

- Não me importo. - Charlie disse virando pra me olhar, ele estava sentado no parapeito com as pernas para fora da torre e cambaleou perigosamente, na mão esquerda um embrulho em papel pardo.

- Isso na sua mão é scotch? Você andou bebendo? - Perguntei com um semi-sorriso no rosto, Charlie raramente bebia, mas costumava exagerar quando o fazia.

- Eu só bebo bourbon Jack, achei que você já soubesse. - Ele respondeu me dando as costas.

Reparei que sobre o parapeito estavam os sapatos dele, e dentro de um dos sapatos vi o brilho dourado do relógio que ele ganhara do pai e dos óculos de grau, era estranho vê-lo sem os óculos, mas me pareceu um detalhe sem importância.

- A bia me largou no meio da segunda música. - Desabafei.

- Heather ainda vale alguma coisa, mas a Bia é uma tapada. - Ele disse com mais dureza do que eu esperava ouvir. - Não se preocupe, o karma toma conta dela.

Charlie era um cara muito alto e de ombros largos, ainda assim um sujeito simpático e de aparência inofensiva. Era um nerd de marca maior. Devorava livros no café da manhã, adorava filosofia, estudava tudo que podia sobre religião, embora não mostrasse seguir nada do que lia. Não pude deixar de sorrir quando ele deixou Bia a cargo do karma, era exatamente o estilo dele, por isso era meu amigo. Meu melhor amigo.

- Vamos embora daqui, esse baile já era. - Eu disse na esperança de voltar pra casa e descansar na minha cama.

- Pode ir sozinho, vou ficar aqui mais um pouco.

- Certo. Se cuida Charlie, te vejo amanhã.

Eu desci as escadas e deixei o Charlie lá. No estacionamento, vi Kevin e Heather saindo no carro dele, a noite deles ainda estava começando. A minha no entanto estava a 10 segundos de terminar.


BOOM!!

Me virei na direção do barulho assustado, parecia uma bomba, mas não tinha fogo. De repente escutei um grito de mulher e um alvoroço logo depois, estavam na torre do relógio. Corri de volta e logo percebi que algo estava errado.

Cercado por uma 4 pessoas completamente aturdidas, estava um corpo no chão, um corpo grandalhão, sem óculos e sem sapatos, e sem vida. Charlie tinha caído da torre.

A noite parecia não terminar nunca enquanto os policiais me faziam mais e mais perguntas, já que eu tinha sido o último a vê-lo com vida.
Um dos peritos encontrou um bilhete no bolso interno paletó:

A tout le monde
A tous mes amis
Je vous aime
Je dois partir

These are the last words
I'll ever speak
And they'll set me free

Charlie.

Era a letra de "A Tout Le Monde" do Megadeath. Estava escrito com a letra do Charlie e foi considerado um óbvio bilhete de suicídio. Charlie se suicidou. Eu nunca soube o porque. Ele era meu melhor amigo, devia estar gritando por ajuda há semanas com aquele jeitão retraído dele e eu nem percebi, concentrado demais no meu mundinho precioso de festas e garotas.

Dias depois a mãe de Charlie me ligou e disse que eu podia ir até a casa dela e pegar alguma coisa do Charlie como lembrança. Eu entrei no quarto dele, e vasculhei por algum diário, alguma pista do motivo pra ele ter feito aquilo, até liguei o computador e verifiquei o que ele andava fazendo na internet, mas tudo que eu via eram sites sobre retiros budistas, monastérios e coisas relacionadas ao budismo. Em cima da escrivaninha estava a única coisa que eu tirei daquele quarto. Um folheto falando sobre um retiro budista no japão.

Em um ano eu consegui a grana e logo estava de viagem marcada. Não ia pra faculdade, estava de malas prontas pra ir pro japão.
 
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